Um chamado para crer na potência feminina do rap sergipano
- Gasú
- 2 de dez. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 3 de dez. de 2025
Em entrevista ao Periféricos, a rapper aracajuana Dani DK fala sobre seu álbum Matriarkado

Daniela de Souza, mais conhecida como Dani DK, é uma rapper atualmente em evidência na capital aracajuana. Vinda da Zona Norte, desde os 15 anos constrói sua trajetória artística na cena underground do hip hop sergipano, atuando em frentes como batalhas de rima, grafite e produção cultural, e em agosto desse ano finalmente estreia seu primeiro álbum, intitulado Matriarkado.
Desde muito antes, como na época da extinta Artigo 163, santíssima trindade do rap sergipano ao lado de personalidades lendárias do rap sergipano como Manu Caiane e Salva nos tempos áureos de 2015, Dani DK já vinha dando pistas do extraordinário talento que carregava consigo. Com uma potência vocal digna de uma Amy Winehouse (sem nenhum exagero!) e as vivências da quebrada, a artista que leva uma tattoo da Lauryn Hill e uma máxima do eterno Sabotage no braço direito, atravessa gêneros como o R&B e o soul sem perder as raízes do hip hop, embalando uma sonoridade perfeitamente localizada entre os anos 2000 e o rap contemporâneo. Vide Amor Preto.
A artista tem tatuagens emblemáticas como a da Lauryn Hill e do eterno Sabota. (Fotos: Gasú)
A equipe do Periféricos realizou uma entrevista com a artista, para conhecer um pouco sobre seu universo criativo e sua caminhada pessoal, além dos processos que culminaram no lançamento de seu primeiro álbum de estúdio.
“É sobre não sucumbir”

Quem é Dani DK na perspectiva de Daniela? Como isso influenciou sua vida, sua arte, esse disco?
Dani DK: Desde muito nova, sempre adquiri muitas experiências, sejam elas boas ou ruins. Passei por muitas coisas as quais escolhi e as quais foram por um propósito para aprender e amadurecer. Hoje, como uma mulher adulta, entendo que precisei passar por situações para que eu pudesse dar voz a Dani DK e ser Daniela ao mesmo tempo.
A música é a sua paixão? O que te apaixona na música?
Dani DK: Sim…a construção da letra na melodia, a emoção passada e sentida… a música é minha vida.
O que te inspira?
Minha filha. O crescimento dela me traz forças para continuar.
Seu disco mescla diversas narrativas femininas, entre amores, vivências de base de mães-correria e resistências, trazendo reflexões sobre a dualidade de ser mãe e artista periférica. Como você se relaciona com esses fragmentos, essas várias mulheres que te habitam?
Dani DK: Todas as vivências, desde a infância até a fase adulta, faz com que tenhamos essas experiências e, desde então, nada nunca foi esquecido. Na verdade, tudo que vivi me fez ser o que sou hoje e chegar onde estou, né? Acho que se tudo fosse fácil, não teria essas fases da minha vida e nem história e referências para se contar.
“Matriarkado” é um álbum que está levantando a cabeça de mulheres que estão sofrendo com as violências do Estado. Sua música salva vidas. É sobre autoestima, referência, empoderamento. Você sente que sua arte também é política?
Dani DK: Com certeza. Desde que comecei a compor minhas vivências e entender que mulheres negras consumiam minhas músicas, compreendi que seria algo revolucionário. A questão da representatividade, da influência enquanto mulher negra e mãe, sendo artista independente, isso mudou minha vida e agora eu sei que outras mulheres podem se sentir representadas.

Você considera “Matriarkado” um disco porta-voz de alguém ou algo?
Dani DK: Sim, “Matriarkado” é o meu porta-voz, o porta voz da minha mãe, da minha filha, das minhas amigas. Mulheres negras que estão na luta diária, que só quem passa, entende.
“Matriarkado” também traz a ressignificação carregada num grande desabafo. O disco abre apresentando alguém que foi vítima do sistema e cometeu erros, mas também soube aprender com eles e se autoperdoar, ter resiliência e não desistir dos sonhos, principalmente transformando as tragédias da vida em arte. Você considera esse primeiro disco como uma forma de cura dentro do seu processo criativo e emocional?
Dani DK: Talvez… acho que se eu não tivesse aberto mão de muitas coisas, eu não seria Dani DK. Esse álbum realmente mostra o sacrifício que foi construir as fases da minha vida para me tornar uma artista/rapper sergipana. Muita gente não sabe da minha caminhada, mas acredito que ao ouvir, entendem um pouco e sentem que, depois de muito tempo, me sinto curada e mudada por toda essa minha vida. “Matriarkado” diz muito de quem eu fui para o que sou hoje.
A artista adentra várias fases diferentes da sua trajetória na construção do álbum. (Fotos: Villar)
O disco junta R&B, soul, hip-hop, funk e referências sonoras estéticas dos anos 2000 muitas vezes num tom romântico. Fale um pouco sobre suas influências e referências, sempre estiveram presentes na sua vida? E também, você se considera uma romântica?
Dani DK: Lauryn Hill e Negra Li, duas mulheres-referência que se fazem muito presentes no meu cotidiano. Amo a performance, o que elas passam através de cada letra e o sentimento é percebido de várias formas, né? Eu me considero romântica, porque precisamos dar carinho, amar e ser recíproco com quem é com a gente… e mesmo que não seja, que possamos demonstrar o que existe dentro de nós.
Como o rap surgiu na sua vida? Como foi a caminhada até o desfecho concreto e materializado do seu primeiro álbum, os principais desafios? O caminho te ajudou a moldar o álbum? Fale sobre encontros e trocas que foram marcantes (com outros artistas, em fóruns, em movimentos e espaços que o hip hop te levou) que contribuíram no seu desenvolvimento.
Dani DK: Escrever um álbum de 10 faixas foi algo que eu pensei que seria fácil, mas na real foi muito difícil. Experiências com artistas que eu já referenciava e admirava - isso foi um marco na minha carreira. A minha vida toda, e tudo que passei, me fez escrever esse álbum de uma forma muito sentimental. Coisas do meu passado e do meu presente e que almejo para o meu futuro. Estou muito grata por cada experiência.
O que você diria para a Dani Dk lá do início? O que quer dizer para todas as pretas? Como foi o seu processo de lá pra cá, seu processo de amadurecimento?
Dani DK: Que a gente já tá conquistando tudo aquilo que sonhávamos. Hoje vejo que todo o meu desejo tá sendo encaminhado, que era cantar e ser reconhecida, de uma certa forma. Quero dizer que sejam resistência no espaço onde vocês constroem e que nunca desistam dessa correria (que muitas vezes ficamos tristes pelas pedras que tem no caminho), mas o que nos faz forte é a paciência de persistir neste sonho. Meu processo foi algo que precisei realmente errar pra acertar, hoje me considero alguém com muito mais experiência e sabedoria.
Você considera o disco uma mistura do passado presente e futuro? Se sim, por quê?
Dani DK: Sim, sim. Tudo que eu sonhei, coloquei em prática e tô conseguindo almejar o que quero. Faz parte das fases da vida, a conquista.
A seleção da equipe que compõe a ficha técnica do disco, pessoas que tão na produção (produtora, beatmaker, feats, etc) são escolhas conscientes ou do acaso? Fale um pouco sobre isso também.
Dani DK: Sim, já sabia quem iria entrar nesse álbum e quem iria dar importância à ele. Foi tudo selecionado e bem trabalhado com minha equipe. Todxs no mesmo pensamento e tá aí, conseguimos executar de uma forma poderosa.
Ser mãe reflete no trampo? Como sua cria acompanha seus processos criativos e está presente neles?
Dani DK: Com certeza… Ester é minha filha e minha pessoa favorita. Acabo aprendendo muito com ela e com certeza passo as coisas boas que ela deve aprender, inclusive sobre como ser uma boa artista, como compor e entender o sentimento. Ela canta muito e a música realmente é algo do seu agrado. Ela já canta na igreja e tem uma base muito técnica do canto. Ela é maravilhosa!
Sua lírica é livre. Qual a importância dessa liberdade para nós como mulheres racializadas dentro do hip hop para falarmos como quisermos e explorar diversas linguagens, como forma de expressar nosso universo e não calar a nossa voz?
Dani DK: A forma de se empoderar e reconhecer nossos espaços. Podemos construir, movimentar, nos expressar. Quando temos a noção do poder que a gente tem, já era.

Matriarkado é um disco poderoso, sua letra incentiva as pessoas, principalmente as próprias mulheres, a enxergar a potência feminina mesmo que o mundo externo tenha nos devastado. Se fosse sintetizar a mensagem do disco, seria algo como acreditar nesse poder interior infinito que toda mulher carrega?
Dani DK: A base é importante. Nos valorizarmos e reconhecermos a nossa importância dentro da sociedade é transformador, principalmente dentro do hip hop. Mesmo com todos os desafios, quando movimentamos cultura, nos sentimos vivas e é isso que fortalece.
O disco também faz uma desconstrução do estereótipo da mãe e da figura feminina como alguém sempre frágil ou sempre forte demais. Traz a crueza de sermos humanos e suscetíveis a erros e fragilidades. Qual a importância de abraçar essa face mais verdadeira de quem somos?
Dani DK: As experiências vão fazendo quem nós somos hoje. Errar e aprender.
Seu disco nos faz lembrar de uma organização e poder ancestral das minas que é a força do matriarcado, um chamado para retomar nossos lugares. Dentro do cenário sergipano, como as mulheres no hip hop tem resistido?
Dani DK: Tirando o tempo que resta dos afazeres do dia e se movimentando culturalmente. Tenho mulheres ao meu redor que trabalham, materna e etc, e mesmo assim constroem em qualquer espaço. Porque entendem o sentimento de quem é hip hop. Todo valor é dado.
Você diria que Matriarkado é sobre manter vivo o nosso poder?
Dani DK: É sobre não sucumbir.

Por: Gasú
Supervisão: Viviane Silva
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