Conheça Hellbala, o artista sergipano que está colocando Sergipe no mapa das batalhas de rima do sudeste
- Periféricos

- 4 de dez. de 2025
- 16 min de leitura
Atualizado: 8 de dez. de 2025
Das profundezas da Zona Norte de Aracaju ao Eixo do Sudeste brasileiro

Ele tem apenas 20 anos, mas há muito tempo constrói uma trajetória de responsa na cena underground de Sergipe. Rimando sobre suas vivências, tomado por referências literárias, políticas, históricas, musicais e filosóficas, nosso guru do ritmo e da poesia se lança em caravana para conquistar títulos nas batalhas do RJ e redondezas. Esse é Hellbala, filho de dona Rosimeire, que representou Sergipe em solos cariocas no Slam BR 2024, realizado no último dia 20 de novembro durante o Festival Literário de Igualdade Racial.
Seu envolvimento com arte começou ainda muito cedo, seu refúgio diante do cotidiano violento das periferias do Santa Maria e Nossa Senhora do Socorro. Inspirado por seus irmãos mais velhos, principalmente por Dus Anjos (outra grande figura da cena sergipana), inicialmente o artista escrevia músicas de rock, mas ao conhecer o hip hop, sua vida tomou um novo curso. Na cultura de rua, o jovem poeta encontrou seu destino e forma de expressão. Após a abertura do lockdown da pandemia de Covid-19, os movimentos de rua lentamente voltaram à ativa, e foi justamente através dessas rodas culturais que sua arte também prosperou.

Quem não se lembra do retorno da Batalha da Bandeira e do Poesia Marginal em 2021, que aconteciam no centro da cidade e reuniam MCs, grafiteiros e "maloqueiros" de várias zonas diferentes para se articularem nas rodas culturais? Ou também a Batalha do Bueiro na Zona Oeste, que junto com a extinta Essências Free, também foi palco de grandes momentos do rap sergipano nesse retorno à "normalidade".
De lá pra cá, Hellbala foi tomando forma e pulsão, numa evolução constante e desenvolvimento estratosférico. Em pouco tempo, se tornou um dos MCs mais populares da cena sergipana, desbancando ainda com pouca idade inúmeros MCs da velha escola nas batalhas. Assim alcançou títulos importantes dentro do contexto da cultura de rua, como quando venceu a edição comemorativa de 1 ano da Batalha da Bandeira, ou quando, com sua lírica, inflamou o Duelo Estadual de 2023, mas não pôde representar Sergipe por ser menor de idade.
Entretanto, após atingir a maioridade, o jovem se consagrou como representante sergipano para o Duelo Nacional de MCs 2024, saindo do Estado pela primeira vez através do rap para realizar um de seus sonhos mais antigos como MC. A partir dessa experiência em Belo Horizonte, onde pôde conhecer MCs de todo o país, seu ímpeto de crescimento se expandiu ainda mais.

Após a fundação da Batalha do Holly, que acontece às segundas na entrada do Conjunto Eduardo Gomes, o movimento ganhou ainda mais força e novos MCs e apreciadores devotos da cultura hip hop foram surgindo, uma nova geração foi sendo criada, e os pilares e referências dessa novíssima escola vêm do protagonismo de prodígios como Sheng, K Hip Hop, Dus Anjos e Hellbala, que foram exemplo e espelho para muitos outros "crias".

Pelas ruas do RJ, o poeta já marcou presença em duas batalhas de rima bastante populares. Na Baixada, Hellbala mostrou a que veio, conquistando o título de campeão na Batalha da Raul Cortez, na Praça do Pacificador, em Duque de Caxias. O artista também deu as caras no Buraco do Lume, e se destacou. Sua passagem pela Batalha do Coliseu foi tão marcante que sua rima recebeu louvores de nada mais nada menos que o historiador e militante do PCB Jones Manoel. Seguindo em polvorosa para as terras mineiras do saudoso Lô Borges, Hellbala realizou mais uma de suas proezas na Batalha do Bandeirantes, em Juíz de Fora, garantindo mais um título para Sergipe.
Quem faz parte do movimento, compreende a relevância dessa conquista. Nesse momento, Hellbala honra sua terra e representa o sonho de muita gente ao reescrever o apagamento histórico que sofremos com sua potência. Não à toa, seguimos ecoando nosso mote de guerra:
"Só pode dizer que o Nordeste venceu quando geral tiver no mesmo patamar, que é pra não haver MC como eu tendo que se humilhar pra poder ter lugar. O eixo não gosta porque "nois" tem rima, e se "nois" domina é pra compartilhar. Vai matar ou vai morrer? Vai morrer ou vai matar?"

Aguardamos ansiosamente pelos próximos capítulos desse artista sergipano revolucionário, cheio de ousadia e talento. A Equipe Periféricos entrevistou o artista para nos contar com mais detalhes sobre sua trajetória e as últimas andanças pelas terras do Eixo.
Periféricos: Você poderia falar sobre como começou no hip hop?
HELLBALA: Eu sempre quis ser artista. Escrevi rock na minha infância inteira, na esperança de um dia cantar. Porém, quando eu descobri a expressão do hip hop, eu percebi que o rock não era tanto para minha classe social, pois me pareceu que já havia passado o tempo em que o rock era forma de expressão para negros e pobres. E me identifiquei muito com o Slam… nunca tive tanta facilidade pra encaixar rimas em batidas, mas o Slam me deu liberdade pra escrever do meu jeito. Depois da pandemia, em setembro de 2021, vi um vídeo de Jay Beethoven e Themis no Instagram. Ouvi o sotaque e pensei: “esses manos são sergipanos, são meus. Eu vou procurar saber onde acontece essa batalha e vou encostar". Procurei a batalha, falei com Will (da Batalha da Bandeira), e no dia 17 de setembro fiz minha primeira rima. Perdi na primeira fase, tomei um couro (risos), e até hoje quero reencontrar esse MC pra dar uma “peia”. Mas aquele dia mudou minha vida. Fui pra batalha com R$4,00 no bolso, comprei duas águas, coloquei no bornal, pulei a catraca e fui. Na volta, eu, Dus Anjos, Super Choque e Pardão ainda tomamos um enquadro. Foi um dia muito louco.
Periféricos: Como surgiu o nome HELLBALA?
HELLBALA: O HELL é recente, incluí ele no meu nome no início de 2024, pois sempre fiz uma análise direta entre a periferia e o inferno, como tudo parece um ciclo eterno, em que só muda o nome das pessoas, mas os demônios são os mesmos. O HELL faz referência a de onde eu saí. Já o BALA faz referência ao personagem Pedro Bala, do livro Capitães de Areia, de Jorge Amado. O livro discorre sobre a vivência de centenas de crianças órfãs de pai e mãe, que foram abandonadas na Bahia, e quem comanda essas crianças é Pedro Bala, um menino de 14 anos, que também é órfão.
Periféricos: De quantas competições você já participou?
HELLBALA: Eu já participei do Duelo Nacional de MC's, que é a maior prateleira que o MC de batalha pode alcançar: representar seu estado em BH. Em Sergipe, acredito que ganhei as competições mais importantes. O próprio Estadual, o Gladiadores do MIC - que é a única batalha que rola mais de mil reais de premiação. Eu sou o maior campeão de sete rodas culturais, como a Bandeira, o Holly, a Juventude, o Prisco e a Invisíveis. Na Bandeira, tenho 34 títulos, no Holly, 24. Juventude, eu tenho 23, e no Prisco, 21.
Periféricos: E como você avalia o seu crescimento no hip hop?
HELLBALA: Eu tenho aprendido muito. Eu sempre falo que o hip-hop formou meu caráter. Eu tinha tudo para ser uma estatística do sistema prisional ou estar no cemitério agora. Todo dia eu agradeço muito à arte e ao hip-hop por ter formado o meu caráter a ponto de eu nunca ter tirado nada de ninguém. Assim que eu rimei na minha primeira batalha, Ryan deixou de existir. Eu não tenho hobbies, não tenho um ciclo social externo ao hip hop. Tudo que diz respeito à minha vida nesses últimos 4 anos, é 100% restrito ao hip hop. Então, a minha avaliação é que eu tenho sido salvo todo dia, seja mental ou fisicamente.
Periféricos: Existe alguma pessoa em específico que fez você se interessar por esse mundo?
HELLBALA: Minha maior inspiração é meu irmão, Dus Anjos. Ele meio que ocupou a posição de pai para mim, mesmo sendo uma criança como eu. Lembro de ter 10 anos e Dus Anjos ter 13, e ele estar cuidando de mim, não apenas como um irmão mais velho faz, olhando o mais novo enquanto a mãe trabalha, mas sim de ser como meu anjo protetor. O primeiro projeto que eu considero do New Hip Hop, o Favela Vive, quem me apresentou foi Dus Anjos. Antes de conhecer o Favela Vive, eu não conhecia o cenário atual do rap. Conhecia Racionais, Realidade Cruel, Facção Central, mas toda essa nova leva, conheci a partir de Dus Anjos. Porém, a maior referência para as minhas metas são César e Xamã. Eles foram os caras que me mostraram que era possível me tornar alguém a partir disso.

Periféricos: E quando você tá batalhando, como é que você se sente?
HELLBALA: Eu sempre tive uma brisa. Meu irmão é meu ponto de referência no mundo, ele sempre foi bom de bola. No meu bairro, eu era conhecido como o irmão de Dus Anjos. Eu nunca existi. Nunca senti que fizesse diferença no mundo. Desde criança, sempre tive a percepção que estava cumprindo tabela. A partir do momento em que me encontro no hip hop, com seis meses de batalha de rima, eu já era um dos maiores campeões. A sensação que me dá quando estou no palco é essa: ‘Caralho, eu existo! Minha existência faz diferença no mundo! Eu mexo no ecossistema artístico dessa parada. Então, é uma reafirmação de vida, porque você ser sergipano em uma cultura americanizada, porque por mais que o hip hop seja negro e periférico, ele também é uma arma do imperialismo estadunidense.
Então, quando o sergipano, que é do estado mais subestimado do Nordeste, ocupa uma posição como a que eu ocupei ontem, na prateleira do Coliseu, onde 60 MC's vão tentar sorteio para seis vagas e a chance é de um para dez, e eu estou como confirmado, isso reafirma a minha existência.
Periféricos: Tem alguma rima que você já mandou da qual tem mais orgulho?
HELLBALA: Sim, tinha apenas um ano que eu rimava e fiz a final do aniversário de um ano da Bandeira. E aí na última rima, PitBruxo vira para mim e fala bem assim: “Foi na Umbanda que eu encontrei minha espiritualidade”. Nesse momento a gente tinha entrado em um tema de religião. Aí eu respondi para ele:
"Com certeza, por favor
quebre todas correntes com machado de Xangô
Por isso, eu sou sujeito homem
Entre a cruz e a espada eu escolho o microfone".
Essa foi uma das melhores rimas que eu já fiz na minha vida.
Periféricos: Quais são os seus MCs favoritos?
HELLBALA: Dois deles são sergipanos. Um é meu irmão, Dus Anjos. Ele tem um estilo único pro cenário mundial. A linha de raciocínio que meu irmão segue, eu nunca vi ninguém fazer igual. Meu segundo rapper favorito é K Hip-Hop. Já meu terceiro, eu diria que é Vinicius ZN, com quem aprendi muita coisa, por vídeo mesmo. No início do ano eu fui para Alagoas rimar e aí tive a oportunidade de enfrentá-lo. Foi muito especial enfrentar alguém que eu admiro tanto. Eu passei dois anos da minha vida pagando o meu aluguel, pagando minha comida, comprando roupa, me locomovendo, por causa de rima no ônibus, e a primeira pessoa que eu vi falando sobre começar a rimar no ônibus, foi Vinicius ZN. Eu meio que comecei com o trabalho que me sustentou por dois anos através de uma fala dele.
Periféricos: Como foi sua experiência de rimar dentro dos ônibus?
HELLBALA: Eu vou vou começar falando uma parada muito foda que aconteceu em Juiz de Fora. Fui a Minas Gerais para poder rimar, acabei me consagrando campeão de uma batalha. Lá é proibido baleiros e MC 's no ônibus. Eu e um um maninho que apresenta e organiza a maior batalha de lá, quebramos isso. Nós subimos em um ônibus e improvisamos, ou seja, nós fomos os únicos MC 's em um período de 8 anos a rimar em um ônibus em Juiz de Fora. A primeira vez que fiz isso, foi depois de ver um podcast de Vinícius ZN, no dia 28 de dezembro de 2021. Eu não tinha caixinha de som, e minha mãe pegou uma com uma amiga dela. Eu fui um dia antes do ano novo, porque eu não tinha um real para passar o réveillon. Fui despretensiosamente, achando que ia fazer uns 30 40 conto. No final, fiz mais de cem reais. Voltei para casa muito feliz e decidido de que eu ia passar um bom tempo sem trabalhar para ninguém. Nessa, deixei de morar com minha mãe de novo, voltei a morar com os meus irmãos. Depois eu e Dus Anjos fomos morar sozinhos, e passei dois anos, de segunda a sábado, rimando em ônibus. Meio que a gente ‘colonizou’ todas as linhas de ônibus de Sergipe. Mas ao mesmo tempo que é bom, o cara passa muita humilhação. Sergipe é extremamente conservador. Então, muitos trabalhadores da classe operária, que deveriam estar unidos com a gente, acabam segregando a nossa visão de mundo. Eu nunca gostei de fazer buzo só para arrancar risada. Eu gosto de falar de política, da gestão, da empresa de ônibus que tá fodendo com a vida do trabalhador. Então a gente sempre sofre alguns preconceitos, alguns olhares ruins. Uma vez fui mandar uma rima e um homem se levantou me mandando calar a boca.
Periféricos: E que mais tem peso na sua rima? A filosofia, a rua ou a política?
HELLBALA: Eu sempre fui eu sempre fui uma criança muito muito curiosa. Sempre gostei muito de ler. Quando eu tinha uns 11 anos, meu maior questionamento era porque na minha casa ninguém lia. Eu sempre tive isso comigo. Uma vez eu peguei um livro de uma cunhada minha. Foi o primeiro livro que eu li e eu me apaixonei pela leitura. Foi O Alienista, de Machado de Assis. Eu já li esse livro umas três vezes, e toda vez que faço isso, percebo que não era para uma criança de 11 anos estar lendo isso, pois eu percebi que não entendi nada do livro.
Eu diria que tento ao máximo transmitir a filosofia e a política da rua, porque sinto que os muros da universidade segregam essa visão. Por mais que tenham periféricos na universidade, a periferia está muito longe de estar dentro da universidade. Esse ano eu foquei 100% em me politizar como a rua se politiza. Porque eu acho que não adianta a gente dissertar sobre filosofia numa linguagem que só acadêmico vai entender. Eu acho que hip hop é extremamente o oposto.

HELLBALA: Desigualdade social e problemas mentais. Eu acredito que são dois problemas que afetam muito a sociedade brasileira. E quando a gente fala sobre saúde mental, percebemos que são coisas que afetam a todos nós e muitas vezes nem sabemos. E isso muitas vezes acaba gerando situações difíceis, pois não sabemos como lidar com isso, e aí são comportamentos que são reproduzidos e formam um ciclo. Nossos filhos vão passar por algo parecido, os netos, bisnetos, e etc.
Então eu acho que os movimentos sociais, todos eles pecam em dar atenção à questão da saúde mental da periferia. Às vezes fica parecendo que nós não sofremos, que nós não não passamos por esses problemas, sendo que somos os mais vulneráveis a passar por eles.
Periféricos: E o que significa para você fazer rap de Sergipe para o Brasil ouvir?
HELLBALA: Significa muito. Eu não sou o único MC do meu bairro, porque também tem meu irmão, e é muito foda você perceber quantos espaços ainda estão vazios na prateleira de Sergipe. A gente não tem muito ponto de referência nacional. Eu vim para cá e meu trabalho era só de quinta-feira a domingo, que era para recitar no Nacional de Poesia. Mas eu senti a necessidade de ficar uns dias aqui, tentando vaga em algumas batalhas, porque eu sabia que fazendo isso, eu me tornaria um ponto de referência para os moleques que também sonham com isso, mas que não tem autoestima.

Periféricos: E como é, para você, ser um dos primeiros sergipanos a sair do estado para participar das batalhas? Você costuma ser bem recebido nesses espaços?
HELLBALA: O público do Rio de Janeiro me abraçou mais do que uma boa parte do público sergipano. Isso me deixou muito puto com isso, porque esse apoio deveria vir do meu estado. Mas em relação aos artistas, eu sinto que muitos me olham torto. Minha primeira experiência de intercâmbio foi no Duelo Nacional. E eu senti muitos olhares negativos, inclusive de pessoas do norte e do nordeste.
Eu já assisti a primeira fase do Nacional do ano passado diversas vezes e para mim, o meu round de resposta é o melhor, e isso não é apenas a minha opinião. Noventa, que é vice-campeão nacional, um expoente da cultura nacional de batalhas de rima, e vários outros caras da mesma patente me falaram algo parecido. Inclusive, depois que eu fiz esse round, senti que alguns olhares mudaram. Então, deu para ver que era um desmerecimento.
Então, estar quebrando esse estereótipo do sergipano que está indo cumprir tabela é muito bom, porque a gente nunca foi só isso. Nós somos o movimento hip hop sergipano, que mesmo que perca de dois a zero na primeira fase, ainda estamos representando todo um aglomerado de realidades e de pensamentos que são fodas.

Periféricos: Nesse tempo que você está aí, você já se deparou com alguma mentira sobre Sergipe ou sobre o Nordeste?
HELLBALA: A pergunta que eu mais recebo aqui é se nós comemos muito cuscuz (risos). O foda é que eu realmente como muito cuscuz, então não é mentira. Mas teve um mano que veio trocar uma ideia comigo e eu tive que falar três vezes de onde eu era, e aí ele virou para mim e perguntou: "Ah, mano, mas deve ser foda, né? Porque lá é tudo meio roça". Eu falei: "Pô, mano, é uma cidade, tá ligado? É igual aqui, vão ter roças no interior, mas a capital é a capital". E ele ficou impressionado por eu dizer que Aracaju é uma cidade de prédios. Mas pelo menos nas batalhas enquanto rimo, ainda não ouvi nenhuma nenhuma mentira.
Periféricos: Agora, voltando um pouquinho para Sergipe. Você poderia citar algum momento que para você, que foi inesquecível nas batalhas daqui?
HELLBALA: Foi uma edição da Bandeira, em que eu encontrei com um dos rimadores mais antigos do nosso estado, o JP Grandão, que é de lá da Zona Oeste e que é uma referência sinistra. Foi a primeira vez que eu encontrei ele na Bandeira. A gente se enfrentou e ele me venceu. Mas depois disso, ele falou bem assim no palco: "Eu sempre tive o sonho de Sergipe ser campeão nacional, mas eu perdi a crença nisso por um tempo, até ver esse molecão aqui rimando. E ganhar o nacional sempre foi meu sonho. E quando ele me falou isso, foi grandioso para mim. É uma parada que mesmo que eu não ganhe o nacional, daqui a 30 anos eu ainda vou me lembrar.
Periféricos: E qual a batalha aqui em Sergipe que foi sua escola?
HELLBALA: Foi a Bandeira. Quando eu comecei, só acontecia a Bandeira em Sergipe inteiro. Eu comecei em setembro, e em janeiro, já comecei a batalhar. Eu diria que o Will, o organizador da Bandeira, é o MC mais importante para minha geração, porque ele é um MC razoavelmente novo e que estava abdicando de rimar para organizar a única batalha do estado. Então ele foi um professor e eu fico muito triste que as pessoas esquecem a importância e a grandeza dele. Sempre gosto de frisar isso a todo mundo que me pergunta.
O Will é muito bom, tanto que no ano seguinte ao que eu inaugurei a Roda da Juventude, ele foi campeão estadual, o que só comprova que o cara tava abdicando de algo para ver outros se tornarem bons.
Periféricos: O que você acha que mais mudou na cena de Sergipe de 2021 para cá?
HELLBALA: A escassez aumentou. Hoje em dia a gente tem menos MCs em atividade, a gente tem menos batalhas em atividade. Mas deixa eu explicar. Em 2021 a gente só tinha a Bandeira. Então, se for comparar hoje, com 2021, estamos mil vezes melhor. Porque era só uma batalha, que acontecia toda sexta-feira. Porém, em 2023, a gente tinha 12 batalhas por semana em todo o território de Sergipe, e isso nos movia para caralho. Porém, isso deu uma decaída em 2024. Agora, 2025 tem sido um ano de muita resistência, porque querendo ou não, a Batalha Gladiadores do Mic era uma iniciativa do Projeto Verão e infelizmente nós caímos em uma gestão bolsonarista em Aracaju, que acabou cortando a verba da cultura. Então, só de não ter o Projeto Verão, já é uma escassez maior de recursos e de holofotes.
Periféricos: E como você enxerga essa atual situação?
HELLBALA: No que diz respeito aos artistas que desistiram, eu enxergo como uma oportunidade de saber quem ama essa cultura e realmente respira isso. Em relação aos cortes de recursos, para mim, só evidencia o que o rap grita há anos, que esses filhos da puta preferem a gente subindo para roubar um ônibus do que subindo no ônibus para improvisar. O sistema quer nos matar de qualquer jeito.
A gente não tem acesso a uma batalha de rima promovida pelo Estado. A um sarau promovido pelo Estado. Por exemplo, quem não escuta forró, sofrência, tem o quê de cultura para consumir? Esse é um questionamento muito válido a se fazer cara a cara com Emília Corrêa. A gente quer uma caixinha de som para chegar ali na praça e livrar 30, 40 jovens aracajuanos de trocar sua vida por drogas, de se prostituir, de estar só em casa com problemas com a saúde mental.
Periféricos: Mudou alguma coisa em você depois das suas vitórias nas últimas competições?
HELLBALA: A felicidade. Eu voltei mais feliz, mais inteligente do que quando eu fui. E a minha felicidade vem 100% de ter mostrado pros molecão que é possível. Muitos moleques de Sergipe, principalmente da nova geração, se sentiram inspirados, muito bem representados.
Periféricos: E qual é o maior aprendizado que se ganha ao disputar com pessoas que são de outra realidade?
HELLBALA: É muito difícil falar qual. Por exemplo, no Duelo Nacional, aprendi muito sobre como construir e se portar no palco, aprendi um pouquinho com a lírica e com a linha de raciocínio de cada um. E na poesia vai ser muito parecida parecido. Acredito que na poesia eu ainda vou aprender mais do que no Duelo Nacional.
Periféricos: E o que é que você vê depois do Slam BR?
HELLBALA: Quero praticar mais. Passei esse ano todo muito focado no slam, pois sabia que iria representar Sergipe no Slam BR 24. Não fazia a mínima ideia que eu iria ser campeão de poesia e estar em dois Slam BR no mesmo ano, mas treinei, unifiquei alguns elementos do teatro à minha poesia, depois de participar de oficinas ministradas por dois estudantes da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Humberto, Kailani e Raiane, com quem aprendi expressão corporal e a utilizar melhor minha voz, e isso potencializa muito.
Periféricos: Você tem algum recado para quem te assiste rimar?
HELLBALA: Consumam o jornalismo do gueto, negro e independente, que abre os ouvidos para artistas periféricos. Consumam os artistas locais, quem faz acontecer, e cuidem da cabeça e do coração de vocês.
Por: Gasú e Mateus Ferreira
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