TERMINAL DE INTEGRAÇÃO
- Periféricos

- há 17 horas
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Artista visual Calunga cria painel de grafite em muro de colégio da periferia aracajuana

O painel pode ser visto em um dos muros do Colégio Estadual Jornalista Paulo Costa, no bairro Bugio. A pré-produção aconteceu em abril e a produção e pós em maio. A tela "Terminal de Integração”, que deu origem ao painel, faz parte da série “Te. de Integração: Tv. do Bom Fim” pesquisa do artista que depois se tornou uma exposição individual realizada na Galeria de Arte Álvaro Santos. Através dessa obra, Calunga propõe reflexão sobre como a periferia se desloca pela Grande Aracaju, a partir de um dos principais pontos de encruzilhada dos aracajuanos: o Terminal de Integração Leonel Brizola, mais conhecido como Zona Oeste.
Para a produção da obra, Calunga conta com as influências obtidas no movimento hip hop, do qual faz parte, e também com o exercício de observação em como as pessoas se movimentam e se mobilizam através de suas passagens pelos terminais e também o que faz as pessoas estarem nos terminais: saindo ou chegando, qual o destino de cada, o encontro de corpos e também afastamento das pessoas naquele ambiente, esse último, por exemplo, é representado pela competição dos passageiros para conseguir um lugar no ônibus. Tudo gera curiosidade e reflexão no artista e constituem o norte da sua produção que reflete o racismo estrutural, segregação racial e territorial a partir desse ir e vir da população periférica.
Segundo Calunga pintar esse painel em uma escola pública da periferia, ressalta a necessidade do artista de se comunicar com pessoas negras e periféricas dentro dessa tela e em outros trabalhos. A escolha do bairro é também uma estratégia de acessibilizar a arte e construir outros imaginários para esses locais “distantes” das galerias de arte e de centros culturais "O painel Terminal de Integração fala sobre o território de Aracaju, trazendo questões como racismo de segregação racial e territorial, olhando para o cotidiano de pessoas negras periféricas e como elas fazem para transitar dentro do território de Aracaju. A partir desse movimento a gente pode perceber, essas questões de racismo, de quem pode acessar determinados lugares, quem é que não pode", ressalta.
O painel foi criado em três etapas: lixar parede, aplicar a tinta base e as tintas do painel e finalização com o spray. Durante o processo, Calunga contou com a ajuda do artista Boom. (Fotos: Marina Evaristo)
A obra de Calunga é um passeio por suas vivências como um jovem negro e periférico. Inspirada em seu dia a dia e nas pessoas que encontra pela cidade, essa é uma característica do artista, que reflete em seu trabalho as cenas cotidianas e seus detalhes. Além disso, Calunga que atualmente é influenciado por sua formação acadêmica. “Sou bastante influenciado pela minha formação, das ciências sociais aplicadas, e agora fazendo mestrado em sociologia me fez ficar com os sentidos aguçados para questões sociais, que é basicamente o que eu falo em minhas pinturas”, explica.
Durante a produção do painel, também foi ofertada uma oficina de grafite para os estudantes do colégio. A oficina foi realizada pela artista visual Reja e também faz parte do projeto de pesquisa "Terminal de Integração: Tv. do Bonfim". Na ocasião, Reja falou sobre arte, cultura periférica e acessos à cultura. Os alunos aprenderam ainda sobre os estilos do grafite e fundamentos de desenho, e, após esse processo de conhecimento da arte ali apresentada, os alunos puderam criar um mural na parte interna do colégio sob supervisão da artista.
A oficina de Reja permitiu uma imersão dos alunos no mundo das artes visuais, que além de aprender na teoria, tiveram a possibilidade de exercitar a prática. (Foto: Marina Evaristo)
Democratizar a arte
O grafite (ou grafitti) tem em sua origem a liberdade, solto pela cidade, faz com que a arte chegue para muitos que não têm a oportunidade de acessar os espaços elitizados. Ao transformar uma de suas obras em um painel de grafite, o Calunga descentraliza a arte e a leva para o lugar daqueles que o inspiraram para criá-la: a periferia. Agora uma de suas telas faz parte daquele território, através do muro de uma escola pública, fortalecendo a relação entre arte e educação.
Essa democratização da arte parte de uma descentralização que o artista tem consciência de que precisava ser feita através de uma intervenção artística como a que foi realizada. "Eu fiz minha exposição individual no centro de Aracaju, foi uma tentativa de facilitar com que todas as pessoas pudessem chegar, já que era um lugar central, mas por outro lado eu queria também levar esse discurso e essa minha arte para a periferia, não só levar as pessoas até a arte, mas levar a arte para a periferia, fazendo esse movimento inverso", afirma.
Foram cinco dias para o painel ser concluído, durante esses dias a população já foi se adaptando a arte que agora faz parte daquele território (Fotos: Marina Evaristo)
O movimento de descentralizar a arte permite com que as pessoas de determinado território saiam do lugar de admirador, mas também se vejam na obra criada, criando uma conexão com a arte e o artista, se sentindo parte do que ela representa, assim observa o psicólogo Lucas Ranyere, morador do bairro Bugio e admirador da arte criada por Calunga.
“Essa arte em específico, conecta a comunidade a ela mesma, eu me vejo nela, como acredito que os estudantes da escola que ali estudam também se veem, inclusive no bairro tem uma mulher que vende manga na porta de outro colégio o Francisco Rosa e muitas vezes eu vejo as pessoas passando despercebidas por ela, como se ela não tivesse ali, essa arte em específico, a ver, a mostra, transforma essa mulher que não era vista em arte. ela pode passar por lá e se ver representada, como as pessoas podem a partir disso perceber ela também”, pontua Lucas.

Por Marina Evaristo e Viviane Silva
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