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Slam sergipano em pauta

As poetas Anne e Yala falam sobre a cena slam em Sergipe, analisam o crescimento, os desafios e o futuro do slam no estado



Anne e Yala entraram no movimento hip hop ainda na adolescência, quando começaram a frequentar a ponte do Bairro Industrial, principal espaço de encontro da juventude da região. (foto: Alexandre Machado)
Anne e Yala entraram no movimento hip hop ainda na adolescência, quando começaram a frequentar a ponte do Bairro Industrial, principal espaço de encontro da juventude da região. (foto: Alexandre Machado)

Nascidas e criadas na Matinha, ocupação que fica dentro do Bairro Industrial, na Zona Norte de Aracaju, Anne e Yala Souza são hoje umas das principais referências quando o assunto é a cena Slam de Sergipe. Filhas de pescador, desde cedo perceberam que as palavras podem se tornar uma ferramenta de transformação. 


A aproximação das irmãs com a poesia falada acontece a partir da circulação por movimentos culturais de rua e saraus, em um contexto em que a arte funciona como refúgio e possibilidade de expressão diante das violências cotidianas impostas à juventude periférica. É diante desse cenário, que o Slam surge em suas trajetórias não apenas como competição, mas como espaço de pertencimento, disputa simbólica e construção política.

 

Frequentadoras assíduas da cena, não demorou para que as irmãs passassem a receber os primeiros convites para participar de batalhas. Logo em seguida, surgiu a vontade de organizar uma das competições que hoje integram o calendário da cena Slam em Aracaju: o Slam da Norte, iniciativa que colocou as duas no papel de formadoras e articuladoras do movimento no estado.



Anne e Yala são as organizadoras do Slam da Norte, o primeiro de Sergipe com acessibilidade linguística e que acontece na capital sergipana desde 2023. (foto: arquivo pessoal)
Anne e Yala são as organizadoras do Slam da Norte, o primeiro de Sergipe com acessibilidade linguística e que acontece na capital sergipana desde 2023. (foto: arquivo pessoal)

Desde que mergulharam de cabeça no movimento, Anne e Yala acompanharam diferentes momentos da cena slam em Sergipe: o surgimento, o apagamento e a retomada. Esse percurso ajudou a desenhar o cenário que existe hoje no estado, marcado por iniciativas que mantêm a poesia falada em circulação. Slams como o da Norte, do Mangue, o Avera e o Slam de Duplas Aracaju (o primeiro do Nordeste nesse formato), ajudam a fortalecer uma cena construída majoritariamente de forma independente. 


Em conversa com a equipe do Periféricos, Anne e Yala falam sobre essa construção, os desafios institucionais, o reconhecimento fora do estado e o futuro da poesia falada em Sergipe.



Periféricos: Como vocês enxergam a cena slam hoje em Sergipe e em Aracaju? Ela já está consolidada ou ainda está sendo construída?


Yala: A cena Slam iniciou aqui por volta de 2018. Na época, o único Slam que tinha aqui era o Slam Tabuleiro, que ficou por um tempinho. Foi quando o Slam foi trazido para cá e a gente conheceu o que era essa batalha de poesia falada. Depois teve uma parada e em 2023 retornou com tudo. Foi nesse ano que veio o Slam do Mangue, o Slam da Norte e o Slam de Duplas Aracaju, a primeira batalha de poesia falada do Nordeste, que foi organizada por mim. Nele, a competição de slam é de duplas. Foi algo muito inovador, a galera aqui abraçou muito e aconteceu lá no centro de criatividade. Inclusive, foi a primeira vez que o slam ocupou um espaço como o palco de teatro, porque geralmente nós estamos nas ruas. 


Atualmente, temos também Slam Avera, que acontece no maior festival de cultura urbana da cidade, que é o Festival Internacional de Graffiti - Agora é Avera. Então a cena está muito forte e eu acredito que a tendência é só crescer.


Anne: Eu enxergo a cena como consolidada, e isso aparece na prática. Recentemente abrimos inscrição para um slam e apareceram 13 poetas. O padrão é 10. Tivemos que fechar. Isso nunca tinha acontecido aqui. Depois que eu fechei, outros poetas me mandaram mensagem: "Ah, você divulgou, mas não está aqui o link na bio". Eu falei: "É porque eu já fechei". Porque senão iam ser 15 poetas e a gente nunca viu tantos poetas assim participando de um Slam. A gente acompanha os slams de outros estados. Na Bahia, por exemplo, são oito poetas e a gente vem para Sergipe e tem 13. Então, isso mostra para gente que a cena de Slam aqui está viva, e estão vindo muitos poetas bons. 


Através do Slam de Duplas, colocamos Sergipe no cenário nacional. Inclusive, foi bom Yala citar o Slam de Duplas, porque imagine: se um poeta recitando é incrível, imagine duas vozes em um só grito e esse é o nosso mote lá: “Duas vozes em um só grito”. A visibilidade desse projeto foi tão grande, que a gente foi para São Paulo, para o Estéticas da Periferia, do Emerson Alcalde, que é uma referência no cenário de Slam aqui no Brasil, porque ele veio com o Slam da Guilhermina, que foi o primeiro do Brasil a ser feito na rua.



Anne e Yala durante a primeira edição do Slam de Duplas Aracaju. (foto: Pretty Reis)
Anne e Yala durante a primeira edição do Slam de Duplas Aracaju. (foto: Pretty Reis)

Periféricos: E como foi a experiência de levar o Slam sergipano para São Paulo e representar o Nordeste naquele território?


Anne: O Emerson entrou em contato com a gente e chamou o Slam da Norte, pois estamos fomentando muito aqui em Sergipe a questão do slam para além da competição, com as oficinas nas escolas. Nós fomos para São Paulo, para recitar no Estéticas da periferia e conseguimos chegar na final, coisa que a gente não imaginava, quer dizer a Yala não imaginava, mas eu sim. Havia essa descrença pois se tratava de São Paulo, a metrópole onde nasceu o Slam no Brasil. Mas sempre acreditei que havia a chance de chegarmos na final, e foi isso que aconteceu. Nós desbancamos alguns slams de São Paulo e chegamos na final. Não conseguimos ganhar o título, mas eu fiquei feliz, porque a galera conheceu a nossa poesia, a nossa oralidade, o nosso sotaque. 


A gente falou: "Ó, existe Slam aqui em Sergipe, estamos vivas. A gente escreve. Essa é a nossa poesia”. E nas nossas poesias, nós falamos muito sobre território. Então foi algo muito marcante.


Eu ainda participei de uma mesa em que falei sobre o movimento de Slam aqui no estado. A galera lá de fora ficou encantada com o que a gente faz, e muitas das vezes a gente não vê isso aqui. Porque a gente faz muito, só que a gente não tem o reconhecimento das secretarias de cultura daqui. 


Nós recitamos na Avenida Paulista, no Instituto Moreira Salles e a galera lá foi bem receptiva. Eles falavam: “Caraca, vocês são de Sergipe, vocês são muito fodas”. E nós éramos o único time que tinha duas mulheres, porque a galera tava em trio. Então, de certa forma, nós já fomos em desvantagem por conta disso e fomos as únicas mulheres em dupla que chegaram na final. E a galera torcia mesmo, falavam: "Caraca, é nordeste”. Além disso, muitas pessoas que moram lá, que são nordestinos, foram lá nos ver. Mas a gente não vê esse reconhecimento aqui no nosso estado. 


Yala: E a gente não tinha nem noção do quão grandioso isso era, me refiro a se apresentar no Moreira Sales. Só percebemos quando estávamos andando nos espaços com um amigo nosso, aí ele fazia questão de falar: "Elas vão vão recitar no Instituto Moreira Salles”, aí galera falava: “caramba, vocês vocês vão recitar lá?”. Porque não é qualquer pessoa que entra naquele espaço quanto o artista. Então, pra gente foi algo muito grandioso, ter esse reconhecimento. 


Os grandes festivais daqui não convidam a gente. Eu fui convidada para o Festival Internacional de Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina (Flufsc), mas aqui eu não sou nem vista pelos festivais, tão pouco se lixando para o meu trabalho, para o projeto que a gente faz. Então, eu fico refletindo: “eu tenho reconhecimento no sul, no Sudeste e no Nordeste, mas no meu próprio território eu não tenho”. E isso acaba sendo frustrante. Porque eu preferia esse reconhecimento aqui no meu no meu território, na minha cidade. E não tenho.



Anne e Yala no IX Torneio dos Slams, na cidade de São Paulo. (foto: Diogo Hans)
Anne e Yala no IX Torneio dos Slams, na cidade de São Paulo. (foto: Diogo Hans)

Periféricos: Como essa falta de reconhecimento no próprio território pesa quando vocês tentam chegar em espaços daqui?


Anne: Se é um um edital de fomento, por exemplo, a gente tem que ir para as oitivas para falar: "Poxa, o Slam existe. Cadê aqui neste edital o eixo do Slam?". Para a  Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), eu tive que ligar e perguntar: "Onde é o Slam se encaixa aqui?". Porque nem a nossa categoria eles colocam. É um desrespeito. 


Yala: Mas a gente tá lá brigando e eu posso afirmar: se estamos ocupando vários espaços hoje, 90% é a gente que cria.  Se Anne estava lá ocupando o Museu da Gente Sergipana com a poesia dela, foi porque ela disse: “vou lá ocupar aquele espaço”. É tudo esforço nosso. A gente mesmo que vai atrás.



Periféricos: Para vocês, duas mulheres negras, sergipanas, qual a sensação de sair daqui para ir para fora representar a arte de vocês? O que vocês acham que muda? 


Yala: Acaba me fortalecendo bastante, porque eu gosto de ter essas conexões, de territórios diferentes. É muito bom porque é muito aprendizado, eu troco bastante com essa galera e fico me sentindo realizada. Saber que meu trabalho está indo além de Sergipe, que está sendo reconhecido no sul, no sudeste, no Norte  do Brasil.


Quando eu fui no Estéticas recitar com a Anne Souza, teve uma menina que falou: "Eu lembro de você lá em Minas Gerais, quando você foi representar Sergipe no BR e desde então eu te acompanho”. Isso lá em São Paulo, a menina já me conhecia. Então, isso para mim é muito potente, e a gente ainda quer quebrar barreiras nacionais. Temos muitos projetos aí pela frente, que não podemos contar agora, grandes projetos. Agora só pensamos em ocupar todos os espaços para além do nosso estado e formar poetas, que é o que estamos fazendo agora. 


Anne: E fomentar ainda mais a cena Slam aqui. Deixar o nosso nome, para quando a galera falar em slam, logo pensar na gente. 



Por Mateus Ferreira


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