Natal Iluminado: por que o brilho não chega às periferias?
- Janisse Bispo

- 21 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 22 de dez. de 2025
Em Aracaju, luzes, cores e espetáculos chegam apenas às áreas privilegiadas da cidade

(Foto: Janisse Bispo)
Todos os anos, Aracaju se transforma em um grande cenário de luz. Árvores gigantes, túneis iluminados, espetáculos de cores e decoração temática atraem moradores e turistas para três pontos principais: o Centro, a Orla da Atalaia e o Parque da Sementeira. As fotos viralizam, as famílias lotam os espaços e o clima natalino vira marca registrada em dezembro.
Mas, enquanto isso, bairros da periferia quase não recebem o mesmo brilho ou não recebem brilho algum. E a pergunta que surge especialmente para quem vive nesses lugares é simples, porém incômoda: O Natal iluminado é realmente para todos?
Praça Fausto Cardoso, no centro de Aracaju, recebe iluminação especial e programação variada para toda a família. (Fotos: Janisse Bispo)
Uma cidade dividida pela luz
A distribuição das decorações natalinas também escancara uma desigualdade já antiga, a valorização turística da zona sul e o esquecimento histórico da zona norte e oeste. Enquanto a Atalaia recebe estruturas gigantescas, investimentos robustos e cobertura massiva da mídia, bairros como Bugio, José Conrado de Araújo, Soledade/Santos Dumont, entre outros vivem um dezembro comum, sem cor, sem luz e sem espaço seguro para celebrar.
Para muitas famílias periféricas, ir ao Natal Iluminado significa gastar com transporte, demora para chegar nesses lugares, dificuldade para acessos de pessoas idosas, crianças e PCD nesses ambientes, e ainda tem o incômodo em circular por espaços que não representam seu cotidiano.
Enquanto as áreas privilegiadas estão bem iluminadas, na periferia falta iluminação básica. (Foto 1: Andrey Costa, bairro: José Conrado de Araújo, foto 2: Diany Silva, bairro: Soledade, foto 3: Janisse Bispo, Conjunto Bugio.)
Em dezembro nem todos são lembrados. O discurso oficial reforça que o evento “une pessoas, democratiza cultura e celebra o espírito natalino”. Mas, na prática, o brilho das luzes não encobre o fato de que a população que mais sofre com falta de infraestrutura urbana continua invisível em dezembro.
Para os moradores da periferia, dezembro continua sendo apenas mais um mês, pois nada muda, as ruas continuam sem uma iluminação adequada, insegurança, ausência de espaços públicos de lazer, que até tem, mas não tão bem estruturados como as demais parte da cidade, a exemplo da zona sul. A sensação é de que cidade bonita é sempre “do outro lado”.
O Natal Iluminado em si é uma ideia interessante, atrai olhares de turistas, movimenta a economia da cidade, além disso é um evento muito bonito e simbólico, mas à ideia de que o acesso é igualitário não condiz.
A gente só existe no Natal quando atravessa a cidade
Moradores da periferia como Islaine Santos, do bairro Santos Dumont, conta que, independente da distância, sempre leva seus filhos no Natal iluminado do centro ou a vila do Natal da Orla, porque ela tem uma memória afetiva de sempre ir com os pais nesses lugares no mês de dezembro.
Por outro lado, o sentimento de deslocamento é real. Moradores periféricos relatam que só “participam” da festa quando conseguem se deslocar quase 10, 15 km para chegar a um dos pontos de decoração da cidade. Jocelia Andrade, moradora do bairro São Carlos, pontua que em um dia cansativo de trabalho, é muito complicado chegar em casa e ter disposição para ir à orla observar o natal. Fico dizendo que vamos outro dia, outro dia vamos. Mas vai acabar realmente não indo, as vezes meus filhos sentem falta, mas às vezes nem lembra”, desabafa.
A sensação de exclusão se agrava porque, em vários bairros, faltam serviços básicos, como coleta de lixo eficiente, paradas de ônibus bem iluminadas e praças minimamente cuidadas. Enquanto isso, os outros lugares já citados na matéria se tornam belos palcos cheios de luzes e eventos para toda família, mas distante da realidade de metade da cidade.
O Natal iluminado é ou não para todos ?
É curioso, para não dizer cruel, que o Natal seja apresentado como essa festa universal, em que “todos são vistos”, quando a verdade é que a periferia só é vista quando atravessa a cidade inteira para participar de um evento pensado para outros bairros. Para muitos, ir ao Natal Iluminado significa pegar dois ônibus, gastar o que não têm, atravessar muitos bairros e ainda ouvir que a festa é “para todo mundo”. Não é. É para quem mora perto. Para quem tem carro, para quem faz parte do roteiro oficial da cidade.
E por mais bonito que seja o espetáculo, é impossível não sentir uma pontada de incômodo quando pensamos que os mesmos bairros que não recebem uma única luz decorativa em dezembro também são os mais esquecidos nos outros 11 meses do ano. É coincidência? Difícil acreditar.
Praça do final de linha do Conjunto Bugio tem pouca iluminação. (Foto: Janisse Bispo)
Importante:
Nós não recebemos verbas de governos. A nossa sobrevivência depende exclusivamente do apoio daqueles que acreditam no jornalismo independente e hiperlocal. Se você tem condições e gosta do nosso conteúdo, contribua com o valor que puder.

Por Janisse Bispo
Supervisão: Viviane Silva























Comentários