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Em São Cristóvão, Núcleo Mutamba estreia espetáculo que aborda afeto, infância e imaginação

“O Menino que Brincava com o Vento” entra em cartaz com apresentações gratuitas em museus e na UFS


Luciano Gomes (à esquerda), Astral Tuami (ao centro), Francisco Carvi (de camisa preta) e Iasmin Batista (à direita) atuaram na construção do espetáculo. (Foto: Robério Luz)
Luciano Gomes (à esquerda), Astral Tuami (ao centro), Francisco Carvi (de camisa preta) e Iasmin Batista (à direita) atuaram na construção do espetáculo. (Foto: Robério Luz)

Um menino, o vento e a vontade de não estar só. É a partir desse encontro que o Núcleo Mutamba apresenta “O Menino que Brincava com o Vento”, espetáculo infantojuvenil que estreia gratuitamente no dia 31 de janeiro, às 15h no Museu Histórico de Sergipe, no município São Cristóvão. A peça aposta na delicadeza para falar de infância, afeto e pertencimento.


A montagem, voltada para toda a família, segue em circulação com apresentações no dia 7 de fevereiro, também no Museu Histórico de Sergipe, e 10 de fevereiro, na Universidade Federal de Sergipe (UFS). O espetáculo, que integra um projeto aprovado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), conta a história de Elias, um menino que sonha em ter um amigo e encontra no vento uma presença capaz de escutar, responder e acompanhar suas descobertas. Em cena, solidão, imaginação e afeto se entrelaçam em uma dramaturgia que trata a infância como território de potência, escuta e criação.


Da memória à cena


A ideia do espetáculo nasceu de um retorno às memórias mais íntimas do dramaturgo e produtor Luciano Gomes, que já investigava, em sua escrita, temas como sonho, imaginação e esperança. Durante esse processo, ele foi provocado pelo seu então professor, Gerson Praxedes, a seguir aprofundando esse universo a partir de novas perspectivas.


O percurso criativo passa pelo texto “Divinos Restos de Lembranças", escrito em 2021 e retomado em 2023 com a intenção de uma adaptação para o palco. A partir dos desdobramentos em cena, surgiu a necessidade de um novo texto, mantendo a mesma atmosfera onírica, o que levou à criação de “Desmundo”, obra de caráter mais teórico e atravessada por elementos populares, classificada por Luciano como uma peça que aborda “um lugar onde os sonhos existem, mas que precisam de histórias possíveis para se tornarem realidade”. 


Foi durante um hiato causado pelo recesso da universidade que Luciano encontrou em “O Menino que Brincava com o Vento” uma resposta poética a essas investigações. “O texto é uma resposta ao sonho que permeia Desmundo, a voz de uma criança que deseja ser ouvida”, explica o dramaturgo.


Assim, ao invés de insistir nos textos anteriores, Luciano decidiu mergulhar na própria infância e em experiências compartilhadas por muitas crianças do interior. “Depois de muito insistir no texto que Gerson e eu estávamos trabalhando, eu resolvi mergulhar de cabeça nas minhas memórias de infância, sobretudo da infância que é comum a todo mundo que vive no interior, essa relação com o imaginário e a vontade de ter amigos”, conta.


O produtor do espetáculo afirma que a escrita dialoga com referências que transformam o cotidiano em poesia: o teatro de Ilo Krugli e a literatura de José Mauro de Vasconcelos. Deste último, ele destaca a obra “Meu Pé de Laranja Lima”, a qual define como um livro fascinante.


“O menino que brincava com o vento” busca apostar em uma narrativa que se organiza mais pelo gesto do que pela palavra. (foto: Robério Luz)
“O menino que brincava com o vento” busca apostar em uma narrativa que se organiza mais pelo gesto do que pela palavra. (foto: Robério Luz)

A escolha do vento como personagem simbólico nasce de uma relação ambígua entre medo e curiosidade, marcada pela memória afetiva. “Eu tinha muito medo do vento quando era criança, do barulho que fazia quando ele passava pelo pé de manga que ficava no quintal da casa da minha avó. Um medo-curiosidade. Hoje é como um medo-saudade da minha infância”, explica.


Apesar de ter origem pessoal, o texto passou por um processo de expansão ao longo dos ensaios, deixando de ser uma escrita individual para se tornar uma construção coletiva, atravessada pelas vivências e contribuições do elenco e da equipe criativa. Esse movimento de abertura redefiniu a obra em cena, incorporando múltiplas camadas de experiência e reforçando o caráter colaborativo do trabalho.


“Nós tínhamos um texto singular, depois fizemos um texto plural. Tem um pedacinho de todo mundo ali. O tempo foi curto, foram muitos ajustes para caber todo mundo ali dentro. Mas sinto orgulho do que conseguimos construir”, afirma o produtor.


Na direção, Francisco Carvi escolheu não engessar a poesia do texto, mas expandi-la através da escuta e da coletividade. De acordo com o diretor, o processo foi sensível e livre. “Escolhi construir e trilhar um caminho onde texto, sentimento e coletividade pudessem andar lado a lado. Houve muita troca, experimentação e, principalmente, muita escuta”, explica.


Para Francisco, o principal desafio enfrentado durante o processo de montagem foi o de equilibrar uma narrativa sensível para crianças sem subestimar o público adulto. De acordo com o diretor, o caminho encontrado para resolver essa questão foi apostar na universalidade do sentimento. “Nós nos envolvemos muito nos sentimentos, e sentimento é uma experiência universal. Todo mundo sabe o que é, entende e sente.”


De acordo com a equipe criativa do espetáculo, as cenas se desenvolvem sem explicações excessivas, apostando na sensibilidade do público. (foto: Robério Luz)
De acordo com a equipe criativa do espetáculo, as cenas se desenvolvem sem explicações excessivas, apostando na sensibilidade do público. (foto: Robério Luz)

Astral Tuami é a atriz que dá vida a Elias. Segundo ela, a construção do personagem passou pela leitura exaustiva do texto, pelo debate em grupo e pela experimentação corporal. Ela conta que ao longo do processo foi construindo uma aproximação com o personagem, buscando compreender suas formas de sentir, pensar e reagir ao mundo. 


Dar vida ao menino que dialoga com o vento foi, para a atriz, uma experiência intensa e transformadora, e apesar da complexidade emocional do personagem, Astral reconhece que Elias já habitava nela. “Acho que no fundo ele já fazia parte de mim, só precisava ser chamado pra fora”, conta.


Astral conta que o percurso de construção de Elias se deu por meio de práticas lúdicas e criativas, como brincadeiras, desenhos e exercícios de escrita, que funcionaram como ferramentas de investigação e elaboração simbólica. (foto: Robério Luz)
Astral conta que o percurso de construção de Elias se deu por meio de práticas lúdicas e criativas, como brincadeiras, desenhos e exercícios de escrita, que funcionaram como ferramentas de investigação e elaboração simbólica. (foto: Robério Luz)

A delicadeza do espetáculo também se expressa na presença da avó, interpretada por Iasmin Batista. A personagem ocupa um papel central na trajetória emocional de Elias, atuando como mediadora de seus conflitos. “A avó é uma espécie de intercessora para o Elias. Ela cuida, protege e orienta, funcionando como um ponto de acolhimento e segurança”, explica a atriz.


Iasmin conta que assumir esse papel não foi fácil. “É um personagem que exige sensibilidade, escuta e uma entrega muito honesta, que pede cuidado, silêncio e afeto.” A atriz revela ainda que a condução da narrativa acontece de forma orgânica, sem explicações excessivas, permitindo que cada espectador acompanhe a história no próprio ritmo.


“Ela conduz a narrativa com delicadeza, quase como se o público fosse sendo guiado pela mão”, explica Iasmin. (foto: Robério Luz)
“Ela conduz a narrativa com delicadeza, quase como se o público fosse sendo guiado pela mão”, explica Iasmin. (foto: Robério Luz)

Um marco para o Núcleo Mutamba


Para o Núcleo Mutamba, a estreia de “O menino que brincava com o vento” representa um marco. É o primeiro espetáculo do grupo a circular presencialmente pela cidade, após experiências com teatro online, oficinas, produções musicais e audiovisuais. “Nada se compara à experiência do encontro direto com o público, com um espetáculo concluído, vivo, acontecendo ali, no olho no olho”, afirma Luciano.


De acordo com o produtor, a estreia em São Cristóvão deixa tudo ainda mais especial, pois foi lá onde ele teve o seu primeiro contato com a arte. “Sou sancristovense desde os seis anos, quando me mudei para a cidade com minha família. Foi também aqui que tive meu primeiro contato com a arte, nas ruas, nas calçadas, nos museus e nas conversas com os mais velhos. Por isso, acredito que a cultura sancristovense merece ser vista, reconhecida e ouvida, tanto por quem é daqui quanto pelo mundo”, conta.


Ao levar teatro infantojuvenil gratuito para museus e universidades, o Núcleo reafirma o compromisso com o acesso e com a ocupação viva dos espaços culturais. “É uma alternativa que temos diante da escassez de espaços”, explica o produtor.


Além da equipe criativa, o espetáculo conta com a participação de Larissa Paz (à direita) e Laís Félix (de camisa rosa), intérpretes de Libras responsáveis pela acessibilidade. (foto: Robério Luz)
Além da equipe criativa, o espetáculo conta com a participação de Larissa Paz (à direita) e Laís Félix (de camisa rosa), intérpretes de Libras responsáveis pela acessibilidade. (foto: Robério Luz)

No fim, “O Menino que Brincava com o Vento” convida o público a reconhecer a vulnerabilidade como parte da humanidade e a imaginar outros modos de estar no mundo. “É uma peça que tenta nos lembrar que, mesmo quando parece, nunca estamos sozinhos e que a imaginação sempre é um lugar possível”, conclui o produtor.


Sobre o Núcleo Mutamba


Criado em 2021, o Núcleo Mutamba é um coletivo artístico-cultural multidisciplinar sediado em Sergipe, com atuação em projetos de formação, criação e mediação cultural, especialmente nas artes cênicas. O grupo desenvolve ações de interesse público voltadas à democratização do acesso à cultura, à valorização dos espaços culturais e ao fortalecimento da produção artística local, com experiência em projetos viabilizados por políticas públicas de fomento.


Por Mateus Ferreira


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