Dois gritos em uma só voz: como as irmãs Anne e Yala transformam vivência periférica em prática educativa
- Mateus Ferreira

- há 19 horas
- 8 min de leitura
No Projeto Sankofa, as poetas da Matinha articulam hip hop, memória e educação como ferramenta de transformação social

Anne e Yala Souza são poetas e militantes do movimento hip hop sergipano, que nasceram e cresceram na Matinha, uma ocupação dentro do Bairro Industrial, que está localizado na Zona Norte de Aracaju. Filhas de um pescador, vivenciaram desde cedo os contrastes da periferia: a falta de saneamento, o esgoto a céu aberto, o esteriótipo que marcava o território e a discriminação por serem negras e periféricas. Foi nesse ambiente que elas descobriram o poder da palavra, e cada uma à sua maneira, encontrou nela uma forma de expressar o que as atravessava.
A entrada no movimento hip hop aconteceu ainda na adolescência, quando começaram a frequentar a ponte do Bairro Industrial, o principal espaço de encontro da juventude da região. Foi ali, ouvindo grupos locais de rap denunciarem exatamente a realidade que elas viviam, que as duas começaram a entender a consciência de classe, o racismo e a desigualdade.
Mesmo caminhando juntas, as trajetórias se desenvolveram de formas diferentes. Yala começou como MC, compondo, rimando e entrando no grupo Relato Verdadeiro. Foi como integrante do grupo que Yala lançou o EP Estamos Vivos (2015). Depois, aproximou-se dos saraus e da poesia falada, até chegar ao slam, que para ela, é como um esporte, pois possui regras, jurados, adrenalina e tempo.

Anne é apaixonada por literatura desde a infância e encontrou na poesia o caminho para usar a própria voz. “Eu não fui para o rap porque eu não era muito boa para acompanhar uma batida, mas eu queria falar e eu consigo fazer isso na poesia.” A artista começou a frequentar os saraus da cidade e sua primeira apresentação poética aconteceu embaixo da ponte do Bairro Industrial. Depois disso, ela passou a ser convidada para outros saraus, até chegar à sua primeira competição de slam, que aconteceu em 2020, no Projeto Verão.
Criou então o Slam da Norte, que tem a proposta de trazer a inclusão e a acessibilidade linguística, incorporando intérpretes de Libras para integrar a comunidade surda e ampliar o alcance da poesia marginal. “O meu slam inclui as pessoas pretas e periféricas, mas eu queria expandir ainda mais. Então eu pensei em criar um Slam que incluísse as pessoas com deficiência”.

Mas essa preocupação com a acessibilidade existe na trajetória das duas muito antes da criação do Slam da Norte. Ela nasce da relação com o tio, Eliel Souza, que teve a mobilidade das pernas comprometida após ter poliomielite na infância. Eliel foi o principal responsável por aproximar as irmãs do universo da leitura. Foi ele quem apresentou os livros, levou as então adolescentes ao teatro e ao cinema pela primeira vez, e mostrou, pelo próprio exemplo, que a educação também é um caminho de libertação: ele foi o primeiro da família a ingressar em uma universidade federal e a passar em um concurso público.
Ao circular com ele pela cidade, as artistas perceberam as barreiras impostas às pessoas com deficiência: espaços sem rampas, falta de assentos e violências verbais cotidianas. Experiências que ajudaram a formar o olhar crítico das irmãs e a compreensão de que a exclusão não está na deficiência, mas na forma como a cidade e seus espaços são pensados. É dessa vivência afetiva que surge o compromisso de tornar o slam um espaço verdadeiramente acessível não apenas na locomoção, mas também na linguagem.
Quando o acesso vira projeto
A decisão de acessar a universidade aparece na trajetória das irmãs como um gesto de ocupação. Ao compreender a educação como um espaço historicamente negado a corpos negros e periféricos, elas passaram a enxergar o ensino superior não apenas como formação profissional, mas também como uma oportunidade para começar a dar novos rumos para a educação pública, através da apresentação da literatura negra dentro das instituições de ensino.
Graduada em Letras Português e pós-graduada em metodologia do ensino da língua portuguesa e da literatura, Anne transforma sua vivência com a poesia marginal em ferramenta pedagógica. Yala segue um caminho complementar: formada em Ciências Sociais, torna-se professora de Sociologia e leva para a sala de aula reflexões que conectam vivência e educação.
Juntas, elas desenvolvem o Projeto Sankofa, uma iniciativa pela qual elas deslocam o conhecimento acadêmico para fora dos muros da universidade e o reterritorializa em locais como escolas públicas, espaços prisionais e socioeducativos, Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e Organizações Não Governamentais (ONGs). Neste projeto, a palavra falada, a literatura negra e o slam se tornam instrumentos de formação crítica.

De acordo com as irmãs, nos últimos dois anos, o Sankofa já passou por cerca de 18 escolas, e tem construído um caminho que não se resume a visitas pontuais. Em algumas instituições, como as escolas Leandro Maciel, que fica localizado no bairro Ponto Novo, e Ivo do Prado, do 18 do Forte, as ações aconteceram mais de uma vez, a convite de professores e gestores. O projeto também extrapola a capital, alcançando outros municípios sergipanos como Salgado, Arauá e Nossa Senhora do Socorro, levando suas oficinas a territórios que, muitas vezes, nunca haviam recebido iniciativas desse tipo.

A proposta do projeto é trabalhar a literatura e as escritas negras a partir de um viés que reconhece o passado como um tempo de luta, e não apenas de dor e escravização. Nas escolas, isso se traduz em uma abordagem que rompe com perspectivas tradicionais e eurocentristas, apostando na oralidade, na poesia falada e no slam como ferramentas pedagógicas.

O slam ocupa um lugar central nas ações do Sankofa por seu potencial de comunicação e empoderamento. Através da escrita criativa e da performance, adolescentes, muitos deles tímidos ou pouco estimulados a se expressar, encontram um espaço para falar sobre suas vivências, identidades e conflitos. A prática fortalece a autoestima, amplia o senso de pertencimento e cria possibilidades de reconhecimento do próprio corpo, da voz e da história.
“Na maior parte das vezes, atuamos em escolas da periferia, então sempre buscamos trabalhar uma nova perspectiva com esses adolescentes, que são em sua maioria, negros. Já aconteceu de irmos para a escola, e acontecer uma situação de racismo. Nosso papel é trabalhar toda uma questão de empoderamento, do reconhecimento de si enquanto pessoa negra na sociedade e aprender a amar sua negritude. Então a gente trabalha isso tudo na poesia falada. Nossa poesia é racial”, explica Yala.

Yala conta que as oficinas sempre trabalham autores negros, como Conceição Evaristo, Nego Bispo e Carolina Maria de Jesus, numa escolha política que confronta o apagamento dessas vozes na educação formal. A escrevivência aparece como eixo fundamental: a palavra é escrita, dita, performada e vivida. “Eu sempre digo que o slam é muito importante, porque às vezes, um aluno que não consegue se comunicar, se empodera através dele e acaba até absorvendo uma outra persona”, afirma.
Um dos casos de empoderamento que as irmãs citam como um dos que mais as marcou, é o de um adolescente chamado Davi, aluno do Colégio Ivo do Prado. Durante alguns dias de oficina do projeto na escola, Davi, um adolescente autista e com gagueira, decidiu escrever e recitar sua própria poesia. A reação da escola foi imediata: professores, coordenação e direção se surpreenderam com a desenvoltura do aluno. “A primeira vez que eu ouvi a voz desse menino foi aqui, nessa oficina de slam”, relatou um dos professores, segundo Yala.
Na poesia, Davi falava sobre as violências que enfrentava em sua trajetória dentro e fora da escola. “É mais fácil um camelo entrar dentro de uma agulha do que na escola me acharem inteligente”, dizia um dos trechos, conta Anne.
De acordo com as artistas, o aluno também falava sobre insultos recebidos em casa e na escola, sobre ser chamado de “burro” e sobre a expectativa de que não se formaria. Ainda assim, a poesia não se encerrava na dor: “mas você vai ver eu vencendo”, afirmava, diante de uma plateia visivelmente emocionada.
Em outra poesia, o aluno denunciava que um membro de sua família havia sido morto, vítima de homofobia. “Era uma poesia que atravessava a gente de uma forma tão forte, que o levamos para a primeira edição do Slam da Norte em 2024. Ele abriu o nosso Slam com Poesia. Quando eu olhei para a plateia, as pessoas estavam chorando e eu nunca vi isso na minha vida”, afirma Yala.
Para Anne e Yala, o caso de Davi é a prova do quanto as palavras têm poder: um adolescente que antes ocupava um lugar de invisibilidade passou a ser ouvido, reconhecido e celebrado. A escola fez questão de registrar o momento, e a mãe de Davi expressou publicamente o orgulho pelo filho.
É quando ele sai da posição de objeto e passa a ser sujeito da própria história”, resume Anne. (Foto: Arquivo pessoal)
O Sankofa em expansão
Dentro do Sankofa, a oficina “Leia Carolina”, idealizada por Anne, aprofunda esse contato ao apresentar a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus, utilizando especialmente o texto Quarto de Despejo. A escrita marcada pela experiência de uma mulher negra periférica, aproxima os estudantes da literatura e desmonta a ideia de que a poesia é distante ou inacessível.
“Quando a gente vai nas escolas e fala de poesia, eles acham que é chato, porque pensam que iremos trabalhar aquela poesia que normalmente é apresentada durante as aulas. Mas quando a gente começa a recitar nossos textos e dizemos que fomos nós que escrevemos, eles têm uma recepção positiva, ficam entusiasmados”, afirma Anne.
A partir da leitura e análise dos textos, os alunos passam a escrever e a se reconhecer como pessoas negras, ao mesmo tempo em que percebem que suas vivências também são dignas de palavra e de escuta. (Foto: Arquivo pessoal)
Yala afirma que não é incomum se depararem com discursos que naturalizam estereótipos negativos , e cita como exemplo a ideia de que o cabelo crespo é “ruim”, uma fala que presenciaram em uma das escolas que atenderam. De acordo com as irmãs, essas falas não são ignoradas: viram ponto de partida para o trabalho. Através da poesia falada, esses sentidos vão sendo desmontados, e o que aparece nos textos dos alunos é uma mudança de olhar sobre si mesmos.
“A gente já vai nas escolas sabendo que vamos escutar isso. Nós estamos ali como educadoras sociais, e tentamos mudar o pensamento com as nossas oficinas. Através da poesia, a gente percebia que eles tinham uma tomada de consciência, pois eles já escreviam de uma outra forma”, afirma Yala.
Os impactos do Sankofa não se limitam aos alunos, mas ajudam a transformar o sistema como um todo. Ao formar jovens com mais senso crítico, o projeto contribui para a construção de futuros adultos inconformados com as violências que acontecem na escola e na sociedade. Para Yala, se elas conseguirem despertar esse sentimento em um único estudante, elas já sentem que o projeto cumpriu com o seu objetivo.
Por Mateus Ferreira
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