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Em Aracaju, mulheres e mães atípicas recebem acolhimento e são estimuladas ao cuidado através de grupo terapêutico


É na varanda de sua casa, localizada no bairro Santa Maria, periferia de Aracaju, que a terapeuta e mãe atípica Geane de França reúne mães e mulheres que convivem com a neurodivergência. Em um espaço simples e improvisado, surge um ambiente de acolhimento para a maternidade que, por si só, já envolve sobrecarga física e emocional, e, no caso das mães atípicas, se intensifica diante da desinformação e da ausência de suporte. É nesse contexto que, em meio ao corre-corre do dia a dia, o Grupo de Acolhimento Terapêutico Mãe Girassol vem se consolidando como um espaço de escuta, apoio e fortalecimento emocional.


A iniciativa é gratuita, sem fins lucrativos, e promove encontros semanais presenciais voltados ao cuidado emocional e à construção de redes de apoio entre mulheres. Criado a partir da vivência pessoal da terapeuta emocional Geane de França, mãe atípica e moradora do bairro Santa Maria há mais de 30 anos, o Mãe Girassol surgiu inicialmente em formato online, em 2024, e passou a funcionar presencialmente em março de 2025. A proposta é acolher mulheres em sobrecarga emocional, especialmente mães atípicas.


Durante os encontros, as participantes encontram um local seguro para compartilhar vivências, trocar experiências e falar sobre dores que, muitas vezes, permanecem silenciadas. Entre as atividades desenvolvidas estão rodas de conversa, palestras, encontros terapêuticos, eventos temáticos e vivências de bem-estar, além da participação de convidadas das áreas da educação e da saúde. Além do acolhimento voltado às mães, o grupo também desenvolve o Desenvolva-se Kids, uma atividade paralela pensada para as crianças que acompanham as participantes. A proposta é oferecer um ambiente onde elas possam interagir, brincar e se sentir acolhidas, enquanto suas mães participam dos encontros terapêuticos, fortalecendo o cuidado integral das famílias.


Geane e o cuidado que nasce da vivência


Autodidata, resiliente e altruísta, Geane chegou a fazer parte de outros projetos antes de idealizar o Grupo de Acolhimento Terapêutico Mãe Girassol. Juntamente com outras mulheres, integrou o Projeto Mulheres que Inspiram, no qual compartilhava o propósito de contribuir com a sociedade e fortalecer mulheres do território. No entanto, ao longo do processo, decidiu se dedicar integralmente àquilo que fazia seu coração pulsar mais forte.


A terapeuta descreve esse momento de transição a partir da história bíblica de Jonas, personagem que tinha um chamado, mas tentava fugir de seu destino. “A gente unia as forças, e a minha visão continuava sendo a mesma, só que de uma forma mais ampla. Mas eu fugia do que já estava no meu coração. Parecia a história de Jonas. Eu queria ajudar, estar no projeto, mas chegou um momento em que precisei me posicionar comigo mesma, focar naquilo que já estava no meu coração”, diz.


Em 2020, quando o mundo enfrentava a pandemia da Covid-19, a mãe de Ester também  passava por um processo de transformação em vários aspectos da sua vida. Além das incertezas do período, atravessava uma difícil transição em seu ministério religioso. “Aquele era um momento de choque emocional. Parecia que eu não sabia para onde seguir. Eu estava muito abalada em todos os sentidos”, recorda. Naquele momento de instabilidade, ela iniciou a Mentoria Desatar, conduzida por Renata Santos, que também é cristã. 


“Ela me ajudou a entender o momento que eu estava vivendo e como atravessá-lo. Foi onde começou meu processo de acolhimento, mesmo antes de eu ter o diagnóstico da minha filha”, conta. Enquanto buscava compreender a melhor forma de lidar com as emoções, ela percebia os comportamentos da filha, iniciando a jornada em busca do diagnóstico. E ali, começou também uma busca por conhecimento com o objetivo de oferecer melhores cuidados e apoio à filha. Com o diagnóstico em mãos, decidiu que iria em busca de compreender melhor o cenário que Ester estava inserida.


A busca por compreender a própria realidade a levou à formação acadêmica. Ela se formou como terapeuta emocional pelo Instituto de Formação Acadêmica (FATEB), mas essa não era sua intenção inicial. “Fiz cursos, primeiramente, para me ajudar e ajudar a minha filha”, relata. Com o tempo, a experiência pessoal se transformou em caminho profissional. Sua atuação começou nas redes sociais, pelo Instagram, onde passou a falar sobre autoconhecimento para mulheres, temática atravessada por sua própria vivência e que a aproximou de outras mães atípicas. 


Além disso, nas idas às consultas e nos espaços de cuidado, Geane percebia um reconhecimento silencioso ao conversar com outras mães. Trocas de olhares, histórias semelhantes e vivências compartilhadas evidenciaram a presença de outras mulheres que enfrentavam a maternidade atípica. Desse encontro espontâneo, o grupo começou a se formar. 


“Não foi de forma intencional me tornar terapeuta e ajudar outras mãezinhas. Mas a vivência, os desafios e dores da maternidade atípica me direcionaram a seguir esse caminho”, conta Geane.



Ao unir conhecimento e experiência materna, Geane constrói práticas de cuidado e acolhimento ao lado de outras mães atípicas.(Foto: arquivo pessoal)
Ao unir conhecimento e experiência materna, Geane constrói práticas de cuidado e acolhimento ao lado de outras mães atípicas.(Foto: arquivo pessoal)

O processo de criação do Grupo de Acolhimento Terapêutico Mãe Girassol também foi marcado por momentos solitários. Além da busca constante por conhecimento em sua área profissional, Geane realizou cursos complementares para construir a identidade do projeto, desde a criação da logomarca até a escolha do nome. “Essa arte fui eu mesma que fiz, depois de fazer um curso de Canva para aprender a elaborar minhas artes. Sobre o nome, ele nasceu da história do girassol, que está sempre voltado para a luz do sol. Eu sempre faço a analogia de que nós somos os girassóis e precisamos de luz, e essa luz é o conhecimento, o acolhimento e a escuta”, explica.


Ela destaca que, nos territórios periféricos, muitas mães não são incentivadas a buscar conhecimento ou investir no próprio desenvolvimento. Ao doar seu tempo, procura contribuir para a mudança da forma como essas mulheres se veem, reforçando que, antes de tudo, elas são mulheres. "Eu não recebi esse apoio de pessoas externas, mas o conhecimento foi o que me ajudou. Então, esse conhecimento que me ajudou pode ajudar elas também”, afirma.


Segundo a psicóloga Yandra Emilly, mestranda em Saúde da População Negra e Indigena, “a maternidade, nesses territórios [periféricos], é atravessada por múltiplas violências estruturais que incidem diretamente sobre a saúde mental das mulheres. A idealização da maternidade como destino natural e fonte exclusiva de realização feminina atua como um dispositivo simbólico que silencia o sofrimento e dificulta a busca por ajuda, contribuindo para a naturalização do adoecimento.”


“O trabalho com as mães é para dar o suporte que eu não tive. A mãe atípica acaba direcionando toda a sua vida para a criança, para uma jornada que não é fácil e que demanda muito. Nesse processo, muitas acabam esquecendo de si mesmas”,  afirma Geane de França.


O olhar de reconhecimento nas falas que partilham a vivência rompe o silêncio e cria pertencimento.   (Foto: Tatiane Macena).
O olhar de reconhecimento nas falas que partilham a vivência rompe o silêncio e cria pertencimento. (Foto: Tatiane Macena).

Acolhimento como rede de apoio


Dados do Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), indicam que o Brasil possui 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com maior prevalência entre crianças de 5 a 9 anos. Esse cenário se agrava quando cruzado com dados que revelam o alto índice de negligência e abandono paterno: levantamento do Instituto Baresi, ainda de 2012, aponta que 78% dos pais abandonam as mães de crianças com deficiência antes dos cinco anos de idade, enquanto pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que cerca de 11 milhões de mulheres criam sozinhas seus filhos no Brasil. Diante desse contexto, mães atípicas se veem atravessadas por múltiplas vulnerabilidades, marcadas pela sobrecarga, pela ausência de suporte institucional e pela urgência de espaços de acolhimento e cuidado em saúde mental.


Ao ser questionada sobre o sentimento de acolhimento, Stefane relata que enxerga o grupo como uma família. (Captação e edição: Maria Rafaela Ferreira )

Stefane Lima é uma das mulheres que integram o grupo e é mãe de dois filhos. Ao relatar as dificuldades da jornada, que atravessam aspectos emocionais e financeiros, ela aponta o Mãe Girassol como um espaço de esperança, inclusive no campo profissional. “A gente teve uma palestra com uma moça sobre finanças e eu gostei muito, pois o meu sonho é me tornar manicure profissional”, conta. Segundo ela, as transformações são sentidas em diferentes áreas da vida. “A cada dia eu vou conhecendo uma nova Stefane, uma versão de mim que eu achava que não era possível.”


O processo de aceitação da maternidade atípica, segundo Stefane, veio com o tempo e com o apoio de outras mães. “No início, eu não aceitava que meu filho era autista. Eu ouvia falar sobre maternidade atípica, mas não me reconhecia nesse lugar. Conversando com outras mulheres e conhecendo o dia a dia do meu filho, eu consegui entender que é uma luta constante. A gente tem que se apegar a Deus e buscar apoio emocional, para conseguir  seguir”, afirma. 


De acordo com a psicóloga Yandra Emylle, esse processo faz parte de uma série de desafios que se repetem diariamente na vida de mães atípicas. “Entre esses desafios, destacam-se a vivência de um luto simbólico pela criança idealizada, a sobrecarga decorrente da centralização do cuidado, a exaustão emocional relacionada à hipervigilância constante e o enfrentamento cotidiano do estigma social”, explica.


Stefane Lima (à direita), mãe atípica, afirma encontrar no grupo Mãe Girassol sua rede de apoio. (Foto: Tatiane Macena)
Stefane Lima (à direita), mãe atípica, afirma encontrar no grupo Mãe Girassol sua rede de apoio. (Foto: Tatiane Macena)

Cuidado como direito e prática coletiva

Em realidades nas quais o poder público falha, iniciativas como o Grupo de Acolhimento Terapêutico Mãe Girassol surgem como apoio e rede de cuidado, além de se apresentarem como uma resposta prática à pergunta que introduz esta reportagem: “quem cuida de quem cuida?”. Para a psicóloga Yandra Emylle, “tais iniciativas também assumem uma dimensão política ao confrontar o abandono institucional e a fragmentação dos serviços de saúde, assistência e educação. A escuta se configura como prática de cuidado ampliado, capaz de produzir vínculos, fortalecer redes comunitárias e ressignificar experiências marcadas por sofrimento e exclusão”.


Transformar a varanda de casa em um espaço que acolhe, escuta e produz cuidado, evidencia a urgência de olhar para essa temática com a importância devida. A iniciativa rompe com a lógica de isolamento que historicamente atravessa a maternidade, especialmente a maternidade atípica, e a realidade de pessoas com deficiência, criando redes onde antes havia silêncio e sobrecarga.


Para fazer parte, as interessadas devem entrar em contato com Geane pelas redes sociais. Desde o primeiro contato, já são acolhidas e, posteriormente, adicionadas ao grupo de WhatsApp do projeto. Podem participar mulheres e mães atípicas em situação de sobrecarga emocional. Além do acolhimento, o Mãe Girassol também busca parcerias para viabilizar suas atividades, por meio de palestras, oficinas, atendimentos voluntários, apoio com espaço, materiais, serviços ou patrocínio social.


Assim como grande parte das organizações sem fins lucrativos, a iniciativa enfrenta dificuldades para se manter. Todas as despesas são custeadas por Geane, e as ações acontecem, em sua maioria, por meio de parcerias. “Muitas vezes eu fico até tarde da noite mandando mensagens para empresas e colaboradores, apresentando o grupo e pedindo apoio”, relata.


Por meio do perfil no Instagram, é possível conhecer mais sobre o trabalho desenvolvido e formas de contribuir com o fortalecimento do grupo. O Mãe Girassol segue existindo a partir do cuidado coletivo, da escuta e da construção conjunta de caminhos para que mães atípicas não precisem enfrentar essa jornada sozinhas, reafirmando que o cuidado também precisa existir para além da dedicação ao outro.


Por: Maria Rafaela Ferreira e Tatiane Macena



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