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ENTRE MEMÓRIAS, PANDEIRO E CULTURA POPULAR

A história de Seu Bené atravessa o tempo mesmo quando as lembranças falham


Ilustração: Calunga
Ilustração: Calunga

Natural de Palmeira dos Índios, Alagoas, Seu Bené passou parte da vida entre idas e vindas, morando em diferentes lugares até chegar a Sergipe, onde construiu sua trajetória ao lado da família. “Morei uns tempos aqui, outros acolá e assim o tempo foi passando”, relembra. Aos 90 anos, carrega uma história marcada pelos sentimentos, pelas vivências e pela relação com a arte do que por datas precisas.


Criado por Antonio Cariri, seu pai de criação, em Quiriba (AL), Ele lembra com carinho da convivência em família. “Quando cheguei tinham três rapazes e o restante meninas. Nós nos criamos juntos”, conta. Foi no interior sergipano que grande parte de seus filhos nasceram. Ao lado da esposa, dona Zefinha, companheira desde a juventude, consolidou sua vida. Mais tarde, eles passaram a morar no bairro Santa Maria, periferia da capital sergipana. Primeiro viveram na Ponta da Asa e, depois, mudaram-se para a conhecida Invasão, permanecendo no bairro, onde criaram raízes.


O pandeiro sempre foi seu maior companheiro. Bené já não lembra de muita coisa. Quando perguntado sobre momentos da própria vida, as respostas quase sempre se repetem: “Tenho lembrança, mas não sei descrever”, “A lembrança não vem”, “Sei que vivi, mas não lembro”. Ainda assim, quando se fala do instrumento, algo parece despertar. Questionado sobre a primeira vez que pegou em um pandeiro, conta sorrindo: “Brinquei muito, andava pra tudo que é canto com um”.


O sorriso reaparece quando Valtenisson Saha, pedagogo e admirador de Seu Bené, mostra um vídeo antigo em que ele ainda lúcido praticava a toada. As imagens parecem trazer de volta fragmentos de um tempo guardado na memória afetiva. “Brinquei muito… ainda tenho lembrança. Não posso pegar mais como antes, não tenho mais a mesma noção, mas eu gostava muito. Passei muitos anos batendo pandeiro, brincando. Eu era uma pessoa alegre”, diz, entre pausas e pensamentos que parecem tentar alcançar lembranças distantes.


Um patrimônio vivo, porém desvalorizado


Valtenisson, mais conhecido como Saha trabalha com educação social no Santa Maria. Ele  conta que procurava uma referência cultural no bairro , alguém que representasse a história e a cultura da comunidade. O pedagogo conhecia artistas mais novos, mas sentia falta de uma figura vista como patrimônio vivo do território. Foi então que ouviu falar de um senhor que tocava pandeiro. No começo, imaginava que ele fosse de outro estado ou de uma cidade distante do interior.


Mas, ao descobrir mais sobre sua história, percebeu que Seu Bené fazia parte da própria construção do Santa Maria. O encontro despertou admiração e curiosidade. A partir dali, Valtenisson decidiu dar mais visibilidade à trajetória do mestre pandeirista e passou a conhecer melhor manifestações como a toada e a embolada, presentes na vida e na memória de Seu Bené.


Apesar das lembranças da infância e da juventude aparecerem de forma fragmentada, uma coisa é certa: a alegria  e a arte sempre estiveram presentes na vida de Bené. Entre brincadeiras, festas e encontros, ele encontrou na música e na cultura popular um jeito de existir no mundo. O reisado, os cantos, as toadas e as rodas de brincadeira fazem parte de uma memória afetiva que ainda resiste, mesmo quando as palavras falham.


Foi assim que se tornou referência para as novas gerações. Precursor da arte no bairro Santa Maria, influenciou diferentes gerações por meio da cultura popular. Ainda assim, parte desse legado corre o risco de ser apagado. Seu Bené tem quase 100 anos e nunca recebeu o reconhecimento que merecia por sua contribuição artística e cultural. 


Em alguns momentos, Bené chegou a ser convidado para participar de eventos ligados à política, mas sua essência enquanto artista raramente era valorizada. Muitas vezes, só era procurado em períodos de campanha, situação que acabou trazendo desânimo e afastamento ao longo do tempo. 


Durante a entrevista, Seu Bené observa com um olhar saudoso o vídeo mostrado por Valtenisson, em que aparece cantando e praticando a toada. (Foto: Tatiane Macena)
Durante a entrevista, Seu Bené observa com um olhar saudoso o vídeo mostrado por Valtenisson, em que aparece cantando e praticando a toada. (Foto: Tatiane Macena)

As lembranças que o tempo não levou


Homem festeiro e cheio de vida, era conhecido por cantar, dançar e animar qualquer ambiente. Não precisava de muito: bastava um pandeiro, amigos por perto e disposição para brincar. Sua relação com a música não vinha de aprendizado formal, mas da vivência. Sabia de cor versos e cantigas que hoje já quase não se escutam. Mesmo com a memória enfraquecida, algumas imagens ainda permanecem. Em certos momentos, lembra de si mesmo dançando.


Dona Zefinha conta que nunca gostou muito das festas, mas acompanhava o marido quando ele saía para se apresentar no reisado. Entre as lembranças do casal, ela recorda uma situação que hoje ganha tom de riso: “Teve um dia que a gente acabou perdendo o carro e tivemos que voltar a pé. Viemos andando lá do São do Conrado até a Ponta da Asa, onde a gente morava.”


O tempo passou e o homem que adorava dançar hoje passa grande parte dos dias sentado em frente à televisão, muitas vezes com o olhar distante. Ainda assim, as lembranças das brincadeiras insistem em permanecer. “Eu gostava de brincar a vida toda. Gostava do meu pandeiro, dos meus amigos, de louvar meus colegas. O tempo passa… hoje fico só pensando no tempo passado”, diz com dificuldade. 


A relação do casal de idosos é marcada pelo cuidado, pela presença e pela história compartilhada. (Foto: Tatiane Macena)
A relação do casal de idosos é marcada pelo cuidado, pela presença e pela história compartilhada. (Foto: Tatiane Macena)

As memórias já não vêm com facilidade, e muitas vezes se perdem no caminho. Ainda assim, quando surgem, trazem consigo fragmentos de um tempo em que a vida era feita de festa, encontros e simplicidade. Seu Bené pode não lembrar de tudo, mas carrega em si a marca de quem viveu intensamente a cultura popular e encontrou na alegria um modo de atravessar a vida.



Por Tatiane Macena


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