ENTRE A ARTE E A LITERATURA
- Viviane Silva

- 19 de jul.
- 6 min de leitura
Atualizado: 22 de jul.
Conheça Emilly Neri, multiartista e co-autora do livro “Francisco Carcará"

Escritora, compositora, rapper, fotógrafa e produtora cultural, Emilly é natural da cidade de Itabaiana, localizada no agreste sergipano. Atualmente, a artista reside no bairro Industrial, em Aracaju. A trajetória de Emilly é marcada pela ligação com a cultura, movimentos sociais e literatura, tudo isso moldou quem ela é hoje em dia. A jovem conta que começou a se engajar em movimentos sociais ainda na adolescência quando foi presidente do Grêmio estudantil da escola em que estudava e sua relação com iniciativas culturais se deu através do grupo de hip hop que ela fazia parte.
As vivências de Emilly atravessam sua escrita, ela conta o que vive e relata que gosta de escrever sobre autoestima, amor, memória e ancestralidade. E foi através de sua ancestralidade que surgiu a obra “Francisco Carcará”, criada a partir de memórias registradas por seu avô ao longo do tempo. Desde o momento em que teve o primeiro contato com escritos deixados pelo seu avô, os quais ela costuma chamar de “patrimônio literário”, Emilly entendeu que aquilo se tratava de uma narrativa envolvente e carregada de memória.
O lançamento do ebook ocorreu no dia 6 de dezembro de 2025 durante uma roda de conversa. (Fotos: Soares)
Seu avô, João Alves de Barros é filho de Itabaiana, precisamente do povoado Lagoa do Líbano. Seu Zé Alves, como era conhecido, faleceu em 2015, deixando entre os seus pertences alguns textos datilografados. A partir do primeiro contato com aquelas anotações, se viu interessada por tudo que elas representavam. Através de alguns recortes foi percebido a história de sua cidade natal sendo contada, daí nasceu a obra em que a artista é co-criadora junto a seu avô, que não estava em presença física quando foi lançado, mas estava naquelas memórias guardadas por anos em algumas folhas de papel.
O que para muitos poderia ser mais um livro com memórias de um determinado local, para Emilly é diferente. Ela diz que “Francisco Carcará” é muito mais do que um livro, é um sentimento. Para ela, se trata de um encontro entre gerações, onde a memória de seu avô atravessa o tempo e encontra novos leitores. E ela além de co-criadora se sente como a guardiã da história registrada por ele durante anos.
O livro se trata de um caso real datilografado pelo avô de Emilly, é a história de Francisco Carcará (nome fictício), que teve uma vida marcada por perdas, violência e arrependimento. Toda a história foi registrada por seu Zé Alves através de versos de Cordel e referências que remetem ao território Itabaianense. Trazer essa história a tona é um ato de preservar sua escrita, e “uma maneira de dizer que ninguém escreve em vão”, como aponta Emilly no final do ebook. A obra é totalmente gratuita, está disponível em ebook mas também pode ser encontrada em audiobook no YouTube, os links para ter acesso ao conteúdo estão disponíveis nas redes sociais de Emilly.

Em conversa com o Periféricos, Emilly falou sobre sua descoberta como escritora e também de como surgiu a ideia de criar a obra Francisco Carcará e todo seu processo de produção.
Periféricos: Em qual momento da sua vida você percebeu que tinha o talento para a escrita?
Emilly Neri: A escrita sempre esteve presente na minha vida, mas acredito que comecei a perceber esse talento de forma mais concreta através da composição musical. Antes mesmo de pensar em escrever um livro, eu já escrevia letras de músicas, poesias e reflexões inspiradas pelas minhas vivências, pelas histórias que ouvia e pelas pessoas ao meu redor. A escrita surgiu como uma forma de me expressar e colocar pra fora.
Periféricos: Quais são suas referências literárias?
Emilly Neri: Minhas principais referências literárias começam dentro da minha própria família, meu avô José Alves de Barros, foi quem me despertou o amor pela arte, pela música e pelas histórias. Também tenho a felicidade de ser amiga pessoal de um escritor que admiro muito e tenho honra de chamar de referência: Robério Santos autor da obra “O cangaço na literatura”. Outra importante referência pra mim é José de Almeida Bispo, que, assim como Robério, é meu conterrâneo. Gosto muito de valorizar autores da minha terra, porque acredito que eles ajudam a construir e preservar a identidade cultural da nossa região.
Periféricos: Além dessas referências, têm outras e como elas te influenciam?
Emilly Neri: Carolina Maria de Jesus: Me inspira pela capacidade de transformar a própria vivência em literatura, registrando a realidade com sinceridade e sensibilidade. Sua obra me faz compreender a importância de preservar memórias e dar voz a histórias que muitas vezes são invisibilizada. Bell hooks: Influência minha maneira de refletir sobre os afetos, as relações humanas e o cuidado. Suas obras me ajudam a perceber a escrita como um espaço de diálogo, reflexão e transformação. Franz Kafka: Me inspira pelas questões existenciais presentes em sua obra. A forma como aborda sentimentos de deslocamento, identidade e busca por sentido desperta em mim reflexões que também aparecem em meus textos.
Essas influências se encontram na minha escrita através do interesse pela memória, pela experiência humana e pelas reflexões sobre quem somos, de onde viemos e como nos relacionamos com o mundo.
Periféricos: Como surgiu a ideia de criar a obra “Francisco Carcará"?
Emilly Neri: A ideia de criar a obra surgiu a partir do desejo de preservar e compartilhar uma história que fazia parte da memória da minha família e da minha cidade. Desde o falecimento do meu avô, seus documentos e alguns de seus pertences ficaram guardados com minha mãe. Como acontece em muitas famílias, aqueles papéis antigos foram colocados em uma caixa e permaneceram ali por anos. Mas eu sempre fui muito curiosa sobre as coisas que ele deixou. Certa vez, mexendo nesses materiais, encontrei anotações, receitas, planejamentos, poemas e diversos registros escritos por ele. Entre esses documentos, havia uma sequência de folhas numeradas guardadas em uma caixa plástica. Durante muito tempo tentei entender do que se tratava aquela história. Ao começar a leitura, percebi que não era apenas mais um texto guardado entre seus papéis. Era uma narrativa rica, envolvente e carregada de memórias.
Foi uma descoberta emocionante. Eu não fazia ideia de que meu avô havia deixado guardado um patrimônio literário tão valioso. Entre os materiais, também encontrei tentativas de escrita feitas em sua máquina de escrever, mostrando que ele trabalhou nessa obra durante diferentes momentos da vida, embora nunca tenha conseguido finalizá-la. Quando compreendi a importância daquele manuscrito, senti que tinha uma responsabilidade muito grande em minhas mãos. Adaptar e publicar Francisco Carcará foi uma forma de honrar sua memória, preservar sua voz e permitir que essa história chegasse a outras pessoas.
Periféricos: Como surgiu o nome “Francisco Carcará" para intitular a obra?
Emilly Brandão: Francisco Carcará foi um nome fictício, que eu criei. Como a história é um relato real, quando conversei com o único filho que ele [Francisco Carcará] deixou, ele falou que não queria essa exposição do nome do pai. Por questões éticas e de proteção familiar mesmo, optei por modificar todos os nomes que aparecem.
Periféricos: Como você enxerga a importância da obra para sua cidade de origem?
Emilly Neri: Enxergo a importância de Carcará principalmente como uma ferramenta de preservação da memória e da identidade cultural da minha cidade. Também acredito que a obra pode incentivar outras pessoas a olharem com mais atenção para as histórias de suas próprias famílias. Muitas vezes, verdadeiros tesouros estão guardados em cadernos antigos, fotografias, cartas esperando alguém disposto a escuta-las e registrá-las Ver essa história que esteve guardada por tanto tempo alcançar leitores, é uma forma de manter viva não apenas a memória dele, mas também uma parte da história de Itabaiana.
Periféricos: Como tem sido a experiência do lançamento do ebook ?
Emilly Neri: O lançamento do ebook tem sido uma experiência muito especial, e fico feliz em perceber o interesse das pessoas pela obra. Tenho interesse em fazer uma segunda edição dessa obra. Um livro capa dura com mais ilustrações que não foram para o ebook.
Importante:
Nós não recebemos verbas de governos. A nossa sobrevivência depende exclusivamente do apoio daqueles que acreditam no jornalismo independente e hiperlocal. Se você tem condições e gosta do nosso conteúdo, contribua com o valor que puder.
pix: 79981115753




Comentários