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Desafios do afroempreendedorismo feminino em Sergipe

Atualizado: há 1 dia

Mulheres negras transformam serviços e produtos em meios potentes de existir frente ao racismo e ao machismo


Por Díjna Torres


Iyá Sônia Oliveira prepara e serve comida de terreiro no Ye Ye Bistrô, como forma de preservar e manter vivo o saber ancestral (Foto: Arquivo pessoal)
Iyá Sônia Oliveira prepara e serve comida de terreiro no Ye Ye Bistrô, como forma de preservar e manter vivo o saber ancestral (Foto: Arquivo pessoal)

Em Sergipe, o afroempreendedorismo feminino cresce como força econômica, política e cultural. Em diferentes áreas, desde serviços como os da comunicação estratégica à moda autoral, passando por produtos de gastronomia ancestral e de economia criativa, mulheres negras têm construído negócios que ultrapassam a lógica do lucro. O empreendedorismo feito por elas são espaços de identidade, de sobrevivência, de autonomia e, sobretudo, de combate ao racismo com o objetivo de transformação social.


Mesmo diante das dificuldades históricas impostas pelo racismo estrutural, machismo, falta de acesso a crédito e invisibilização profissional, as afroempreendedoras sergipanas seguem movimentando a economia local, criando redes de apoio e fortalecendo narrativas negras dentro e fora de Aracaju. Mais do que abrir empresas, elas estão criando e trilhando outros caminhos possíveis a partir do que elas sabem fazer de melhor.


Para a jornalista e empresária da Feeling Comunicação Estratégica, Izabella Portela, empreender nasceu quase como um movimento natural dentro da profissão. “Eu acredito que quando as profissões chegam num momento em que não conseguem mais absorver os profissionais no mercado, o empreendedorismo aparece como uma opção interessante”, afirma. Jornalista de formação e pós-graduada em comunicação digital e marketing estratégico, Izabella fundou a agência de comunicação estratégica em Aracaju apostando no próprio capital intelectual.


“Nós nunca fizemos investimento via banco. A empresa nasceu do conhecimento, da capacitação e da experiência. Aracaju é um lugar de “dores e delícias” para empreender. Se por um lado o reconhecimento pode chegar mais rápido em uma cidade pequena, por outro, o conservadorismo e os círculos fechados ainda dificultam o crescimento de mulheres empreendedoras. Você precisa desenvolver um jogo de cintura”, relata.


Izabella Portela trabalha com comunicação e estratégia em diversas vertentes e conta que a comunicação é uma forma de criar oportunidades para si e para outras pessoas. (Foto: Arquivo pessoal)
Izabella Portela trabalha com comunicação e estratégia em diversas vertentes e conta que a comunicação é uma forma de criar oportunidades para si e para outras pessoas. (Foto: Arquivo pessoal)

Ainda assim, Izabella acredita que a comunicação se tornou um dos ativos mais importantes da atualidade. “Quem não se comunica bem perde oportunidades. Comunicação é técnica, mas também é sentimento, leitura de cenário, sensibilidade e embora eu nunca tenha acessado incentivos financeiros diretos, algumas instituições como foram importantes para para capacitação e articulação de projetos criativos, a exemplo do Sebrae daqui”, pontua.


Seguindo ainda na área da comunicação, a mestre de cerimônias e educadora Thaty Meneses transformou a experiência artística e a militância racial em profissão. Ela atua em eventos corporativos, culturais e institucionais, além de desenvolver projetos ligados à educação antirracista, juventude, feminismo e autoestima negra. “Foi me desafiando e fortalecendo minha autoestima que consegui exercer esse papel, mas não é fácil, o mercado em Aracaju ainda funciona muito baseado em influência e relações pessoais. Muitas vezes os contratantes escolhem pela projeção midiática e não pela qualidade técnica”. 


Thaty Meneses tem vasto currículo como Mestre de Cerimônias e atua também em vertentes importantes da militância antirracista, educação popular e contação de histórias. (Foto: Arquivo pessoal)
Thaty Meneses tem vasto currículo como Mestre de Cerimônias e atua também em vertentes importantes da militância antirracista, educação popular e contação de histórias. (Foto: Arquivo pessoal)

As entrevistadas relatam as dificuldades em fazer com que o mercado entenda que os serviços são tão importantes quanto os produtos entregues, afinal, o trabalho que elas desenvolvem também entrega resultados importantes para a finalidade a que se propõe. Além disso, elas lidam ainda com o desafio de serem mulheres negras em espaços que majoritariamente optam por profissionais dentro de um padrão estético pautado na branquitude. Portanto, ambas reafirmam a importância de seguir fortalecendo a sua identidade e ocupando todos os espaços com os seus trabalhos.


A força da identidade negra através da moda afrocentrada


A história da empreendedora Tatiane Costa, criadora da marca Negra Luz, mistura ancestralidade, identidade racial e empreendedorismo. Tatiana conta que começou ainda adolescente, customizando roupas e criando acessórios com tecidos reutilizados. Mas foi aos 14 anos, ao participar de um desfile da Consciência Negra, que percebeu a potência simbólica da estética afro. “Eu não posso falar de empreendedorismo sem falar de quando me entendi enquanto mulher negra. Foi ali que descobri que minhas mãos sabiam transformar tecido em roupa, em turbante, em identidade”, destaca.


Tatiane Costa, da Negra Luz, dialoga sobre as dificuldades de ser uma mulher negra empreendedora, sobretudo em espaços considerados próprios somente para o consumo de uma elite branca. (Foto: Díjna Torres)
Tatiane Costa, da Negra Luz, dialoga sobre as dificuldades de ser uma mulher negra empreendedora, sobretudo em espaços considerados próprios somente para o consumo de uma elite branca. (Foto: Díjna Torres)

A Negra Luz completa 15 anos como referência no afroempreendedorismo sergipano, trabalhando  com moda autoral, estética afrocentrada e fortalecimento da autoestima negra. Mas, a caminhada esteve longe de ser fácil. “Empreender já é difícil. Empreender sendo mulher é pior. Sendo mulher negra, a gente desce mais ainda na escada. Além disso, se depender da política de incentivo, é muito difícil. Tem muita gente boa vivendo à margem, tentando fazer acontecer. Eu encontrei muito apoio nas minhas redes de amigos e sinto muito a falta de políticas públicas permanentes para economia criativa e cultura, que mostrem e deem a devida importância do que nós estamos fazendo em Sergipe”, ressalta. 


Apesar da falta de incentivo à economia criativa que Sergipe ainda enfrenta, Tatiana reconhece a importância de iniciativas importantes a partir de editais promovidos pelos governos e iniciativas privadas. Para ela, os editais têm papeis importantes dentro da trajetória da marca. Ela relata, por exemplo, que  integrou o primeiro núcleo de economia criativa e afroempreendedorismo do Sebrae Sergipe e foi contemplada em editais voltados ao setor. “Esses editais me deram capital para executar coleções. Para quem é microempreendedora e vive de fazer ‘tripas coração’, isso muda tudo, e é por isso que eu defendo a continuidade de políticas de incentivo como as leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo para garantir circulação econômica e fortalecimento cultural.”


Ainda sobre moda autoral, a estilista e empresária Jéssica Lessa, da Opps Loja, vê o afroempreendedorismo como ferramenta de ocupação e transformação social. Para ela, empreender em Aracaju sendo mulher negra significa enfrentar desafios relacionados à valorização profissional e acesso a investimento, mas também descobrir uma forte potência coletiva. “A marca nasceu do desejo de criar uma moda conectada às nossas raízes, à memória afetiva e ao fazer artesanal. Existe uma nova geração de mulheres criando negócios com propósito e transformando suas realidades através da criatividade.”


Jéssica Lessa transformou a sua realidade através de sua mente criativa e seu trabalho com costura e busca transformar a realidade de outras mulheres a partir do seu trabalho. Na foto, está vestindo uma peça feita por ela mesma. (Foto: Arquivo pessoal)
Jéssica Lessa transformou a sua realidade através de sua mente criativa e seu trabalho com costura e busca transformar a realidade de outras mulheres a partir do seu trabalho. Na foto, está vestindo uma peça feita por ela mesma. (Foto: Arquivo pessoal)

A partir do seu saber-fazer, Jéssica desenvolve também o projeto “Alma Sergipana”, voltado à capacitação de mulheres através do fazer artesanal e da economia criativa. “Quando uma mulher aprende, cria e gera renda, ela transforma toda a rede ao redor, ela transforma uma comunidade e esse é o propósito. Esses incentivos ajudam a reduzir desigualdades históricas de acesso e de oportunidade e são fundamentais para fortalecer pequenos negócios liderados por mulheres negras nordestinas. Eu sou exemplo disso e quero que mais mulheres sejam”, reforça. 


O modo de fazer ancestral como engrenagem


Em todas as histórias, o empreendedorismo também nasce da urgência e da conexão com a ancestralidade. Com a gastronomia não seria diferente.  A cozinheira ancestral, Yalorixá e professora Sônia Oliveira, do Yeye Bistrô,  trabalha com alimentos oriundos das tradições de terreiro e da gastronomia afro-brasileira, afinal o negócio surgiu dentro de sua casa de candomblé como resposta a uma necessidade financeira.“Empreender não foi escolha. Foi necessidade. O contato inicial para empreender é difícil. As condições nem sempre acompanham a realidade de quem começa pequeno. Além disso, Aracaju é uma cidade pequena, de contatos direcionados e informações que circulam em esferas específicas.”


Mais do que comida, Sônia entrega memória, religiosidade e afeto. Sua cozinha extrapola as questões religiosas. E apesar de ao longo desse tempo ter conseguido pequenos incentivos, Sônia critica a burocracia e a dificuldade de acesso para pequenos empreendedores periféricos. “Para mulheres negras periféricas tudo é ainda mais difícil, o acesso a esses incentivos, a burocracia, documentação, muitas vezes é preciso ter um entendimento contábil, jurídico, ou contratar esses serviços, e nem todo mundo consegue esse acesso com facilidade. É preciso desburocratizar ou encontrar meios mais acessíveis para que todas tenhamos o mesmo acesso”, reforça. 


Assim como Iyá Sônia, a chef Bianca Oliveira, da Casa do Dendê, resume o início do negócio em uma palavra: necessidade. “Como a maioria das mulheres negras, fui fazer aquilo que já dominava: cozinhar. A Casa do Dendê nasceu dos meus esforços, das minhas escolhas, da minha inteligência e da dedicação diária. Não houve incentivos públicos ou privados”, relata.  Mesmo diante das dificuldades, Bianca segue fortalecendo a gastronomia afrocentrada em Sergipe há seis anos, com um trabalho que carrega a história dos seus ancestrais e das tradições afro-brasileiras. “Meu produto conta a história do meu lugar e dos que vieram antes de mim. Eu reforço isso a cada prato que desenvolvo e na própria estrutura física do meu negócio”, conclui. 


Bianca Oliveira segue fortalecendo a sabedoria ancestral através dos pratos e receitas desenvolvidas por ela em seu restaurante, Casa do Dendê, localizado atualmente em um dos pontos turísticos da capital sergipana. (Foto: Arquivo pessoal)
Bianca Oliveira segue fortalecendo a sabedoria ancestral através dos pratos e receitas desenvolvidas por ela em seu restaurante, Casa do Dendê, localizado atualmente em um dos pontos turísticos da capital sergipana. (Foto: Arquivo pessoal)

Em comum, todas essas histórias carregam marcas profundas de resistência. São mulheres negras que transformaram talento, memória, ancestralidade e criatividade em sustento, autonomia e impacto coletivo. Empreender, para muitas delas, não foi uma escolha idealizada, mas uma necessidade diante das desigualdades sociais e da exclusão histórica do mercado formal. Elas seguem em seus projetos e propósitos de vida fortalecendo os seus negócios e o de muitas outras mulheres, tecendo uma rede afrocentrada de mulheres negras no poder.


Além disso, essas trajetórias mostram como o afroempreendedorismo vai além da geração de renda. Ele movimenta cultura, fortalece identidades, cria pertencimento e produz novas narrativas sobre o Nordeste, sobre Sergipe e sobre o papel das mulheres negras na economia criativa brasileira. Entre dificuldades estruturais, ausência de políticas contínuas e desafios impostos pelo racismo e pelo machismo, essas empreendedoras afrosergipanas seguem ocupando espaços e construindo futuros possíveis com muita luta, muita criatividade e, sobretudo, muita resistência


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